“Não, não é isso!”, a menina dizia. “O que eu sou é cientista!”. E titia que era teimosa feito uma mula tentava a todo custo convencê-la com outra vocação. E quanto mais Cláudia tentava ser cientista mais a mulher se convencia que a menina era artista: “Porque se tirar a luz do azul ele não vai ficar preto, né? E se tirar a luz do cinza ele não vai ficar azul-marinho”. Daí o dedinho da tia! “Eu não falei? Tem percepção poética!”. Isso não era bonito, a menina dizia quase chorando, é ciência. Mas Tia tetê achava mesmo necessário terminar aquele papo no museu, ou, melhor dizendo, no castelo que ficava no caminho da escola.
Uma vez lá dentro, a mulher continuou a falar bobagens. E a menina decidiu não ouvir porque estava suficientemente convencida. Mas para não se cansar mais, Cláudia resolveu fingir que escutava olhando atentamente para tudo que via. Tinha figuras bem coloridas que pareciam uma fotografia, coisas também bem bobinhas que ela já tinha feito com massinhas e outras tantas que, com tinta guache, Cláudia melhor desenharia. No entanto, foi o quadro das meninas que eram metade gente e metade guarda chuva que provocou aquela grosseria irresistível. “Que coisa boba! Tão bonitinhas, mas com só uma perna de bengala e saia formada pela parte do pano da sombrinha!? “. Eu quero ir embora, saiu Cláudia ultrajada a caminho da saída.
Triste e cansada, Tia Tetê, enfim, quase desistiu. Quase, pois Cláudia, ao ver na calçada uma moça mutilada de perna única, gritou: “Olha, Tia Tetê! Que linda!”.
Sobre a Dona da Livraria
Eu não sei… Não queria parecer pretensiosa e ao mesmo tempo acreditava que um blog podia realizar meu sonho de escrever. Porque afinal o que é escrever? É simplesmente ser publicado num monte de papel? Claro que não – ainda mais para uma leitora de Henry Miller. E também é claro que ainda tenho o fetiche do livro impresso. Afinal, não sei plantar árvores e fazer um filho seria criminoso em se tratando de mim. Então, comecei num carnaval como Colombina. Máscaras são boas para gente insegura. Ainda mais quando encaixam tão bem…
- “Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma! Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho! Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu… outro fala da terra! Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade… Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente, porque a história do amor pode escrever-se assim: Um sonho de Pierrot… E um beijo de Arlequim!”. [Menotti Del Picchia]
A práxis do blog até me rendeu um romance. Não destes de capítulos, mas um na vida real, onde eu já não distinguia mais início e fim nem sonho e cotidiano. Deletei então o “Candongas não Fazem Festa”, meu primeiro blog inspirado numa música criada por um personagem de Machado de Assis, pois o romance se mostrou inviável. E como romântica que era suicidei a Colombina. Mas tudo bem! Eu percebi que havia só uma vida para ela: esta aqui. E que sua máscara seria de Daniela…
“— Daniela é assim como um jardim selvagem — disse tio Ed olhando para o teto. Como um jardim selvagem… Tia Pombinha concordou fazendo uma cara muito esperta.
(…) Mas, e um jardim selvagem? O que era um jardim selvagem? Foi o que lhe perguntei.
Ele me olhou com um ar de gigante da montanha falando com a formiguinha.
— Jardim selvagem é um jardim selvagem, menina.
— Ah, bom ! eu disse”. [Lígia Fagundes Telles]
Sobre o Título
O título deste blog, A Livraria das Obras Inéditas (The Bookstore – 1941), foi retirado de um conto do ilustre desconhecido Nelson Bond. Não sei se ele era bom escritor, mas um conto deste tipo vale uma vida inteira! Tive acesso a essa fantástica história quando me arrisquei a comprar a coletânea Maravilhas do Conto Fantástico, cuja seleção assina José Paulo Paes. Comprei pela curiosidade de conhecer um conto de terror de Carlos Drummond de Andrade ( Flor, telefone, Moça) e tive surpresas incríveis que recomendo a vocês.
Demônios, de Aluísio Azevedo;
O Último julgamento, Arthur Koestler;
O Rei dos Gatos, Stephen Vicent Benét;
Lógica Inflexível, Russel Maloney e
O Pedestre, Ray Bradbury.
Só na livraria dos não-escritos pode
uma história alcançar as altitudes
sonhadas pelo autor.
Quem quiser contribuir com mais informações eu adoraria.
Meu nome é Daniela Mendes e eu quero te dar as boas vindas ao nosso estabelecimento!
email: dani.mfsousa@gmail.com

A Livraria das Obras Inéditas by Daniela Mendes is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at livrariaobrasineditas.wordpress.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://livrariaobrasineditas.wordpress.com/.






