Vácuo
Julho 2, 2008
Ah, o cheiro de buceta nas mãos! Porque as metia sempre dentro da calcinha. Rolava na cama à procura de uma ilusão e os dedos suficientemente aquecidos pelo cheiro de sexo. Se levantava um pouco a cabeça, se via no espelho da penteadeira. Despenteada! Bonita, Deus, bonita, e daí? Lá fora um frio tão frio que as calçadas se mantinham limpas e ela… Mãos fedendo a desejo, o doce que azedou na boca, os olhos cegos mais interessados em que ficava para trás. Clichê, céus!, todas as músicas, toda poesia. Tudo desmedido e claudicante. Nenhuma esperança, nada. Um exagero, um amigo diria “mas que dramático!” e ela enjoada de café, do amante, da compaixão. Tudo de maravilhoso se escondia onde? Tudo que a faria sofrer, cadê? Tudo que a enlouqueceria de felicidade, para onde foi? Quem diria a ela que estava viva? Tudo tão seguro, nenhum risco a indicar limites para serem rompidos. Gente, gente, gente e nenhum espelho. Nenhum coelho misterioso a lhe instigar um outro lugar. Impossível estar ali, um quase em tudo que era nada. E o cheiro de sua buceta nas mãos. De volta às cobertas, esperar a morte era esperança? Ir ao banheiro, lavar as mãos, para esquecer-se o quanto era patética. Queria vomitar ao falar com ele no telefone: “O que está acontecendo? Você entrou aqui e se foi como um relâmpago! Queria me dizer algo? Aconteceu alguma coisa?”. Ela respondia “nada, não” e queria vomitar porque essa resposta não o silenciava. Se o mandasse para o inferno ele se apaixonaria! Então se ela lhe explicasse, mas como? Ela também não entendia! Enfiava as mãos dentro da calcinha esticando o máximo possível o elástico. Queria vomitar e dizer “me deixa em paz!”, mas quem poderia lhe dar tal coisa quando se trazia um abismo escuro na garganta? Estava morrendo? Angustia? Fluoxetina? Novalgina? Lágrimas? Cadê o que? Onde existir? Que história a contar? Novela, apertou o power da TV, e esqueceu-se de quem era, do que poderia ser, pés gelados, quase morta.