Notícias da criação

Agosto 26, 2007

Quando Deus era criança, um dia deu por si. Viu que, ao invés de gente, caminhavam silhuetas negras pela via pública. Eram como manchas de piche, como buracos em tamanho natural no espaço da cidade. Coladas em algumas havia constelações, sobre outras apenas poucas estrelas dispersas e, apenas uma, chorava e esmolava estrelas. Algumas silhuetas mais sensíveis tentavam lhe fazer uma doação com estrelinhas do tamanho de uma purpurina – pois é fato conhecido que corpos celestes também engordam. Contudo, a boa fé era vã. Estas coisinhas eram poderosamente grudadas no negrume das manchas. Outras silhuetas nem mesmo se esforçavam e algumas fugiam da desestrelada com medo de serem roubadas. Então, Ele que observava tudo, diferente e com espanto, se aproximou da pobre azeviche sem estrela e disse animando-a: “Ei, é só imaginar uma estrela que você faz uma brotar em ti!”. No entanto, a pobre ignorante, vendo aquele ser tão estranho, de divisões e cores como as lagartixas, se assustou e saiu correndo. Mas tão atordoada que estava tropeçou numa pedra e espatifou-se no chão formando uma grande poça. Mais adiante vinha uma outra penumbra que distraída afundou seu pé na penumbra pobre e ficou presa. Outras, ao tentar ajudá-la e puxá-la pelo braço iam prendendo-se também. E assim, num espaço de dias, toda a população de silhuetas negras como sombras estavam emaranhadas umas nas outras desmanchando toda a paisagem da cidade. Uma única cor tomou conta de tudo, o preto, só ficando colorido e invulnerável o Deus. Com o tempo Ele cresceu e embebido pelo ócio provocado pelo mundo de uma cor só e estrelas brilhantes, fez pequenas esferas coloridas que reproduziam, mais ou menos em cada uma, partes daquele mundo que existira um dia. Terminado o trabalho ele as pendurou em lugares dispersos e ao contemplar sua decoração deu-lhe o nome de uni-verso.