Pigmaleão sacrificado

Fevereiro 27, 2008

Plim
Plim
Plim

Era o barulho do metal no mármore. O frio do seu corpo nu. E o silêncio do homem a esculpi-la.

Plim
Plim
Plim

Todo dia, no mesmo ritmo, ela já se adiantava na monotonia. Acabara a graça de quando se viu apaixonada por um homem que se adiantava na idade.

Plim
Plim
Plim

Ainda guardava mistério e emoção aquele outro que a rejeitava. Que assim como ela que não era mulher, mas supunha, era garoto e pensava ser homem.

Plim
Plim
Plim

Naquela semana recebera longa carta – coisa rara – do despeitado rapaz a choramingar que agora ela fora capaz de se enamorar por outro, deixando-a assim orgulhosa, restando uma certa função ao escultor.

Plim
Plim
Plim

Então pensou que aquela relação de estátua e escultor era sustentada por um garoto… E antes que o pobre e cego homem, na tentativa de refiná-la, partisse-a no meio, ela teve uma grande idéia.

Plim
P…

- Espere, baby!
- Sim gatinha.
- Preciso viajar, visitar uma velha tia… Coisa chata, coisa de família.
- Tudo bem.
Consentiu ele, resignado a um descanso.

E então agora ela sentia sua carne e seu sangue a lhe correr. Lembrava-se da guitarra do outro. De como era ser invejada por um milhão de mulheres! Não era como ser guardada e trabalhada num atelier. Pisava a calçada como quem tinha o mundo nos pés. Era incrível ter dois homens tão diversos. Sentia-se uma lâmina quente a provar a malícia de toda mulher, experimentando a dor e a delícia de ser o que é tal qual Noel Rosa cantou. De mãos dadas com o outro, os cabelos ao vento, não parava de sorrir e de se orgulhar: “tenho um amante”! E mentir… Ah, a mentira escorria macia em sua garganta como chocolate.

Dez dias depois voltou. Acariciou os cabelos do namorado patético como se fosse um gatinho, subiu no pedestal triunfante e se fez imóvel para que o trabalho continuasse.

Pluf…

O metal afundou.