…ou queijo na ratoeira
Maio 25, 2008
Confesso que tenho evitado Dostoiévski faz um longo tempo. Confesso também que por um motivo bem torpe. É que nas bibliotecas seus exemplares têm o peso de um tijolo e pensava que o tempo que gastaria lendo-o me impediria de ler muitos outros. Mas por algum motivo, que prefiro dizer mágico, estou sempre esbarrando no mestre. E para completar, como Petrosky (meu gnomo russo-argentino da literatura) não retorna de suas férias (que já desconfio ser uma fuga), resolvi atraí-lo com um pequeno exemplar de Fiódor no que ele chama de “narrativas fantásticas” (*), como se atrai um rato com queijo na ratoeira.
O pequeno exemplar é Duas narrativas Fantásticas – A Dócil e O Sonho de um homem ridículo, com a tradução detalhista de Vadim Nikitin (muito prazer), editora 34. Muitos aspectos me encantaram sobremaneira, e não pretendo aqui repetir estes que os amigos tanto recomendaram insistentemente. Mas o mais incrível é que já estou arrependida de ter escolhido um livro tão fininho de Dosto (se me permitem a intimidade). Usando uma metáfora de Cortázar (sempre, ai ai ai, êh paixão), “(…) o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos (…)” (**). Se minha vista fosse doente, diria que a novela aqui corre como mobilete e não bicicleta. Tive que parar para escrever tamanha euforia – daquele tipo que há tempos nenhuma letra me causa.
Pois bem, nada de precipitações. Parei a leitura no início. Como costumo comer chocolate, tirando lasquinhas pequenas e consideráveis para prolongar o prazer. E espero que, assim, Petrosky volte!
(*) “Agora, a respeito da própria narrativa. Intitulei-a “fantástica”, ainda que eu mesmo a considere realista ao extremo. Mas o fantástico aqui existe de fato, e mais precisamente na própria forma de narrativa, o que julgo necessário elucidar”.
(**) Aqui invejo mais que amo o gigante, por não alcançar sua forma e por não usar óculos. Infantil, eu sei. Mas nunca fiz questão de ser adulta. História de Cronópios e Famas.






