Bolero 2
Junho 13, 2008
Oi Fátima!
Que bom receber notícias suas. Não faz muito tempo lembrei de você ao ver um exemplar de “Mate-me, por favor!” num sebo da parte baixa. Puxa! Tanto tempo que não escuto um rockzinho. É estranho, entende? Caí naquilo que tanto temíamos: perder o dom de se divertir à medida que nosso prestígio profissional aumenta. Não estou reclamando, seria infantil e hipócrita. Mas não seria saudável deixar de me questionar. Fiquei pensando se aí em Londres essa regrinha valeria… Fiquei pensando se ela aqui ou em qualquer parte do mundo é uma verdade. A resposta negativa pode revelar um demônio preso em mim como um cravo ou carrapato, a me coçar e ao mesmo tempo boicotar minhas forças. Eu não sei, eu realmente não sei. E assim respondo sua primeira pergunta, “como vai você?”. Isso é bom? Ruim? Me responda você porque eu não conseguiria dizer.
A sua segunda pergunta complementa ainda mais minha primeira resposta. Luciana está bem. Agora, nós dois, não saberia dizer também. Arrisque um palpite. Amigos são para estas coisas. Deixe-me dar algumas pistas, afinal você me conhece bem, mas acredito que não seja vidente. Pois então, você sabe que nunca deixei de pensar em Dolores. Eu tento lembrar do CD importado do Bowie que você me deu e ela quebrou por pura vingança… De que mesmo? Incrível! Não consigo me lembrar o que eu fiz para merecer isso. Ou quando ela quebrou toda minha louça. Ou pôs fim na minha amizade com o Leandro ao transar praticamente em público com ele. Ou quando ela vendeu minha coleção de selos para comprar uma televisão. Eu sei, tantas e outras ela aprontou e eu jamais deixei de pensar nela. Só você sabe disso. E por isso vai entender melhor do que ninguém o que me aconteceu há dois dias.
Eu havia acabado de pagar minhas contas mensais e prosaicas, quando numa esquina eu literalmente trombei em Dolores e seu novo namorado – um sujeito de aparência madura, mas não velha, cuja internacionalidade não descobri e temi perguntar para que nenhum detalhe explodisse o frágil controle que precisei manter sobre meu ciúmes. É o que eu chamo de tensão, como tentar fazer pousar na palma da mão uma gorda e enorme bola de sabão. Não sei se foi por saudade, ou por falta de criatividade em recusar um convite, ou por simplesmente descobrir e satisfazer uma saudade daquela mulher, ou a segurança que a existência daquele ser estranho e tacanho nos dava. Eu não sei dizer como fui parar naquele café da nossa livraria preferida. Foi estranho e muito prazeroso. O passado estava ali com a gente, mas não boicotava aquele instante com cheiro de sortimento. Conversamos as mesmas bobagens que nos divertia antes. Como por exemplo, a possibilidade de um passarinho comer restos de carne deixados numa mesa e a partir de então uma nova espécie de pássaros carnívoros existir… Seriam chamados de morcegos diurnos… Como seria isto em latim? E risos e risos… e etc até um doloroso tiau.
Cheguei em casa pela noitinha, um tanto quanto melancólico. Luciana preparou um delicioso jantar e enquanto eu tentava justificar minhas escolhas do passado ela veio com um papo chato. Disse que precisava de atenção e derrubou sobre mim uma série de defeitos que me deixaram culpado e com um gosto de fracasso na boca. Então foi incontrolável mais saudades de Dolores. Não sei se te contei daquela vez que eu andei meio deprimido por conta do desemprego. Só queria ficar vendo boxe na TV e nunca tinha tesão por ela. Então Dolores ficava passando pela sala na minha frente toda hora. Como eu não percebia sua sutil maneira de pedir atenção, ela começou a passar na minha frente nua em pêlo. Obvio, notei suas intenções e passei a ignorá-la deliberadamente. Não satisfeita, ela desfilou mais uma vez, ainda nua, mas com uma melancia na cabeça. Foi inevitável! Explodi em gargalhadas e este foi o começo de minha melhora.
Cara amiga, queria tanto que você estivesse aqui para jogar tarô para mim e me revelar o óbvio que tanto temo ver sozinho! Talvez eu dê uma pirada! Peço demissão, limpo a poupança, liberto Luciana e vou para Londres descobrir se a vida realmente termina aos 40.
Um beijo grande,
Do seu,
Humberto.






