Aos meus 33 anos

Setembro 8, 2008

Fazer 33 anos, em tese, não é muito fácil. Porque agora sim, definitivamente temos a certeza de que os 20 ficaram para trás. Contudo, nesta idade, a gente também não fica muito preocupado com números. Essa coisa é mais importante quando não temos idade para isto ou para aquilo. E o que acontece é que com 33 anos temos a sensação de que podemos tudo, só depende de nosso esforço. Então, não há dramas em fazer 33 anos, de maneira alguma.

A coisa incrível que aconteceu comigo nesta virada de idade foi o enfrentamento da morte. Eu olhei bem na cara dela e disse: “Tudo bem”. Nada aconteceu, eu saí andando e o túmulo foi sumindo aos poucos nas minhas costas. Porque é feito de pedra e ela é eterna. Quando muito se divide, se transforma, rola para outro lugar, mas é sempre pedra.

Entrei dentro do ônibus e por trás de montanhas verdes vi aquele céu azul de uma verdade incrível. Para mim a verdade é azul celeste! A primeira vez que a vi foi há 10 anos atrás e desde então tenho fugido dela. Agora é diferente! Desci do ônibus e fui atrás dela que se ajeitava bem entre prédios. David Bowie era a trilha sonora e eu não conseguia pensar em mais nada além de “tudo bem, eu existo”. Não queria mais literatura alguma se não a que eu pudesse despregar de cada fresta suja da rua. Pessoas passando por mim, se desviando, tão superficiais navegando naquela tarde reveladora sem ao menos desconfiar que os meus olhos contemplavam a verdade.

Ao contrário do que se pensa, esse tipo de experiência não te dá sabedoria. A verdade não tem nada a ver com a sabedoria, mas apenas com sentir. É fácil de aceitar isso porque é bonito. Mas compreender não é muito fácil. E também sabedoria não é lá muito importante, pois não pode dizer nada sobre a coisa certa a fazer. Pois a coisa certa não existe. Embora exista o errado, que é sempre estar preocupado em fazer a coisa certa, mesmo que seja uma preocupação para se atingir felicidade.

Eu fiquei livre num piscar de olhos (literalmente). Livre do belo e de qualquer outra coisa. E claro isso me trouxe certa dor, pois a gente cria muletas e espera que elas sejam pernas. Mas muito melhor é descobrir a perna, com músculos e falências.

Também conheci um menino lindo quando todas as mulheres nesta idade se ocupam tanto em diferenciar meninos de homens. E ele dizia mentiras tão doces quanto o picolé de morango que tomamos juntos na pracinha após uma noite de muita cerveja e sexo. Eu só pensava em Cazuza, quando ele dizia que “mentiras sinceras me interessam”. Era engraçado e eu ali no meio daquela brincadeira descobri que estava pronta para o amor de verdade. Aquele dos ridículos e banalizam sempre uma boa história. Que se foda! Me tornei uma grande irônica, para quem amadurecer é se tornar uma menina de novo.

Na véspera do meu aniversário acabei num bar, abracei estranhos, escutei suas histórias, contei as minhas, ganhei uma rosa, uma paçoquinha e uma cerveja. Parecia que eu podia ser qualquer coisa. Eu era uma garotinha com um grande amor no coração. Estava ali me distraindo enquanto meu príncipe não vinha. E por isso, justamente por isso, todos riam pensando que eu mentia quando dizia: “Um brinde aos meus 33 anos”!

Ritual

Pra que sonhar
A vida é tão desconhecida e mágica
Que dorme às vezes do teu lado
Calada
Pra que buscar o paraíso
Se até o poeta fecha o livro
Sente o perfume de uma flor no lixo
E fuxica
Tantas histórias de um grande amor perdido
Terras perdidas, precipícios
Faz sacrifícios, imola mil virgens
Uma por uma, milhares de dias
Ao mesmo Deus que ensina a prazo
Ao mais esperto e ao mais otário
Que o amor na prática é sempre ao contrário
Ah, pra que chorar
A vida é bela e cruel, despida
Tão desprevenida e exata
Que um dia acaba.
(Cazuza)

3 Respostas para “Aos meus 33 anos”

  1. RUBENS disse

    Muito bom, já passei por isso, fiz cronica também :) )
    abraços
    Rubens

  2. Thiago Leite disse

    Eu disse não à morte uma vez e minha aura ficou colorida, como que (en)feita(da) de flores pequeninas e frutinhas em pencas maduras. Até a pedra se torna areia, que se torna barro, que se torna alimento, que se imiscui na seiva de uma planta qualquer.

  3. Thiago Leite disse

    Iguais às linhas perpendiculares
    Caíram, como cruéis e hórridas hastas,
    Nas suas 33 vértebras gastas
    Quase todas as pedras tumulares!

    (A. dos Anjos)

    A consciência pode se sentir livre em qualquer lugar que o corpo esteja.

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