São inegáveis os benefícios que o Ctrl + c e Ctrl + v, vulgos cortar e colar, trouxeram para a vida de pseudos ou pretensos escritores (como eu) e escritores de verdade. Sem falar na internet e toda essa coisa de e-mail, o celular e as mensagens, e etc… Mas o que eu fico me questionando é: ninguém sente falta da boa e velha carta?

A caligrafia era a aparência do pensamento. As palavras, que estruturavam o pensamento e os domavam dentro de um sentido, tinham sim uma cara: a cara daquele que escrevia. Você podia vê-las ao invés de só imaginá-las e, dessa forma, apertando o papel com a escrita do remetente contra o peito estava, no fim das contas, abraçando-o. Hoje, que graça tem apertar a tela ou melá-la com um beijo? As letras são padronizadas e muitas vezes o sentimento também através dos spans ridículos e sempre, sem exceção, piegas. É impagável um “sinto sua falta”, com a tinta da caneta manchada por uma lágrima como prova incontestável de sentimento.

Tem também a questão do tom que fazia da escrita um ato artesanal de escolha e ordenação de palavras. Tá certo que um bom texto, seja ele escrito ou digitado, sempre prima pelo tom. Mas eu estou falando de cartas! Hoje você não escolhe muito as palavras para colocar em um e-mail. Pode escrever uma ofensa e colocar uma carinha feliz que está tudo bem. Eis o tom e para quê brincar com palavras?

Sinto falta também de algumas práticas como, por exemplo, fazer meus papéis de carta (e também de colecioná-los). Desenhava florzinhas, coloria as folhas com pó de lápis de cor e esfumaçava com algodão. Colava purpurinas (para amigos glamourosos), recorte de fotos de cantores, recortes de jornais, mandava pétalas de rosa para perfumar, enfim, todo o sentimento na palma da mão… A pessoa recebia aquilo e valorizava mais porque sabia que tinha sido feito exclusivamente para ela.

Sem contar a deliciosa desordem dos papéis. Contemplar o caos das caixinhas e latinhas que guardariam para sempre as cartas além de ficar especulando sobre o futuro como naquela música do Chico Buarque, em que os escafandristas encontram o tal do “amor que deixei para você…”.

Daniela Mendes