Calcinha e soutien
Dezembro 19, 2008
Alguma pergunta parecia querer sair a qualquer momento da gaveta das calcinhas… mas era impossível saber sendo todas iguais e de mesma cor. Lista de compras em cima da cômoda e a casa por arrumar. As cortinas do Ceará, os quadros que pintou durante a faculdade, a pia sem louça, tudo aparentemente ordenado mas… Que bagunça! Com o cheiro de maconha e a narração da luta de box na sala, uma vontade de mandar ele pôr uma camisa… Recolheu o copo de Todd vazio. O chocolate parecia ter séculos! Passou para a cozinha com a louça na mão sem ser percebida. Deu mais uma boa olhada… Era o marido no sofá que desarrumava tudo? Mas o short de nylon combinava com as almofadas verdes! Então a sua bolsa esperando para ser levada pra passear e fazer as compras de natal. Coitadinha! Tão entediada ali jogada na poltrona! Sim, vai ver que era a Victor Hugo que dava a impressão de desordem. Vem cá! Tomou a bolsa de uma vez. Como que desencantado, ele resolveu sair de um transe e se dirigiu a ela:
- Se for sair não se esquece de trazer uma garrafa térmica. Deixei quebrar a nossa…
- Tá.
Tá? Como ele quebrou? Porque ela não perguntou? E que doçura era aquela? Um batom, sim! Não podia sair sem a boca bem rubra. Pronto!
Olhou bem…
Tirou tudo.
O papel higiênico parecia uma lixa. Ficou igual uma palhaça. Passou sabonete. Adorava aquele batom. Estava até quase acabando. Sentiu um mal estar ao duvidar se era mesmo seu o batom esquecido no armário do banheiro. Ah, o banheiro uma zona! Que alívio a explicação. É por isso que tinha aquela sensação de casa bagunçada! Esqueceu de arrumar o banheiro. E que droga essa mania dele jogar as cuecas no canto… Nem para enxaguar a pasta de dente que cai na pia! Desse jeito não há arrumação que dê jeito! Foi juntando a roupa suja e já ia começar a falar quando se deu conta que falava aquilo todo dia. Jogou toda a roupa pro alto. Foda-se! Precisava respirar a rua.
Mas que graça tinha? A lista de compras era tão grande que aquilo não passava de uma tarefa doméstica. Não… Tomar um sorvete não fez ser diferente. Passeio que é bom não tem roteiro de suco, carne, legumes e papel higiênico. Se bem que nestes hipermercados tem de tudo! Até sessão de lingerie.
Ao invés de olhar as promoções de sempre, resolveu olhar as calcinhas e sutiens rendados. Não resistiu e comprou um conjunto que a faria parecer uma pin up. Desistiu das compras e correu para casa com um sorrisinho safado que mal podia se conter. Passou pela sala voando, onde o marido permanecera no mesmo lugar. Tomou banho, massageou-se com cremes, alisou os cabelos, fez um penteado e se maquiou – agora sim lembrou que o batom era dela. Vestiu a lingerie nova e se deu uma boa olhada. Poderia sair na rua só vestida com aquilo se não fosse o pudor social. Riu-se sozinha, triunfante, e ficou um bom tempo pensando nas brincadeiras a fazer com o “seu homem”.
De repente, o barulho da privada soou como uma sirene. Sim, era hora da prática! Saltitou como uma coelha. Passou dançando pelo corredor e num rodopio apareceu na sala…
Tan nan!
PAVOR!
Ninguém além do barulho da televisão. Nem mesmo almofadas amassadas. Voltou para o banheiro e só havia roupas suas espalhadas. Percorreu toda a casa e nenhum rastro de homem. Foi até a cozinha e lá estava a garrafa térmica intacta.






