Carta a um escultor
Janeiro 7, 2008
O rosto dele como uma lixa poliu-me o que restava de bruto para refinar a mulher. Mas como em toda arte, criador e criatura são fadados à separação da originalidade de cada um. Eu queria possuir um mecanismo de refrigeração interno que evitasse escritos como este, cartas dramáticas, lágrimas em fúria e atitudes drásticas. Queria um dia ser domada por alguma filosofia que eu escolhesse estudar. Queria preferir a Itália dos romanos à França dos poetas malditos… Queria ser menininha cheia de faz de conta para saber esperar comportada a hora dele me levar para passear. Queria achar muito o papel de coadjuvante… Mas é esta força, esta alegria, eu não sei, que me faz assim mais Ártemis que Afrodite. Olhe meus cabelos ondulados! Não tenho nem cascos polidos e crina escovada como a deusa do amor. Homem, eu te perdôo por não ser meu. Deve ser bem melhor um espelho como companhia do que o caos que se desdobra em possibilidades. Homem, eu te perdôo por ter nas mãos a menina e virar as costas para a mulher. Poderia chorar agora pelo tempo em que a palma de tua mão me esculpiu com carícias, mas acaso chora a estátua de Rodin de saudade do momento em que seu criador lhe deu vida? Não, ninguém jamais presenciou este milagre. Porque o demônio da poesia a tudo congelou com sentimento e bronze.






