Quando ele levanta tão repentinamente da cama, ainda que seja para algo inadiável como um mijo ou a fabricação de nova urina pela ingestão de cerveja, é como se eu tivesse sido jogada na cama tal qual vim ao mundo. Sou incapaz de encontrar minhas roupas, meu cabelo, minhas meias e minhas pulseiras. Ele tem lá certa comiseração e me lê um poema seu. Até minha prosa rima mais que seus versos. Não que isso os desqualifique, mas deixa em mim a impressão que ele não sabe dançar. E isso me incomoda porque nua ali naquela cama imensa não sei o que sou, meu desejo não é capaz de justificar aquele instante. Então enquanto ele trabalha em seu projeto eu desfilo nua pretensiosamente despretensiosa pelo pequeno quarto. E nada… Corro então para este diário e escrevo para me responder o que se pode fazer com um homem que não dança. A pergunta é a resposta, eu acho. Mas minha garganta dói, não há como engolir. A chuva cai do céu como se as gotas em fila se jogassem do prédio que plantaram na janela do meu amor. Difícil imaginar Deus como uma lavadeira de roupas gorda torcendo nuvens carregadas para que elas possam flutuar. Água suja. A chuva nada pode lavar, a espuma fica toda lá no céu quando o cigarro do meu amor se apaga no meu corpo e a sua fumaça que se extingue deixa o céu respirar em paz.