Garoto

Junho 22, 2007

Garoto! Onde está o meu garoto? Oh lua da poça d’água, por favor! Você viu o meu garoto? Não, não o meu filho… É o meu garoto. Não sei onde ele está. Me diga flanelinha suspeito de estupro ou roubo: ele passou por aqui? Você guardou o carro dele? Mentiroso! Ele passou sim. Por isso você é tão cortês comigo. Ele não te deu gorjeta mas você não mexe com a dama dele. Daí eu sei que ele passou por aqui.
O porteiro do prédio que eu morei me deu uma dica. Disse que haviam vários garotos sentados no botequim do cunhado dele. Corri para lá em desespero de esperança. Não, não… Não é assim o meu garoto… Desses de jaqueta de couro que contabilizam porres e só falam de música. Meu garoto acha que sou capaz de entender física e me explica as leis enquanto fazemos comidinhas. Ele também se assombra com a capacidade de alguém fazer um poema mas considera perfeitamente normal a construção de um foguete espacial ou a fabricação de energia atômica caseira! This is my boy!
Que come chicabon porque leu por acaso no jornal a sugestão de algum intelectual. Meu garoto que é meu homem na hora do sexo. Esse é o meu garoto. Seu hippie desdentado com cheiro de cachaça! O que você pretende me oferecendo um anel? Eu falei a palavra sexo e você fica de pau duro? Espere, espere… Foi ele não foi? Aposto que foi ele que deixou o anel pago para quando eu passasse por aqui você me desse uma prenda. É típico do meu garoto achar que eu mereça uma prenda a cada esquina. Ruas sujas, pessoas sujas, noite suja, não me admira que meu garoto tenha se perdido meio a tanta sujeira… Minha esperança aumenta então… Sei que estou no seu rastro, eu sei!
Meu garoto, quero saber dele. Quero estar com ele… Lá vem aquele cara tocar Sweet Jane na guitarra. Meu garoto nem conhece essa música, nem inglês, mas é tão sensível o bichinho que quando eu mostrei para ele esta canção ele foi logo dizendo que era a minha cara. Seu ignorante com guitarra afiada e inglês na ponta da língua, você não tem a sensibilidade do meu garoto. Se o meu amor não tivesse uma esposa e duas filhas… Aliás, se fossem dois filhos ao menos, ele seria capaz de solos de guitarra. Mas são duas meninas, três mulheres indefesas. E eu? Eu apenas uma mulher. É matemática, a evidência da razão, eu entendo, sou uma boa menina. E ganho prendas por isso: ele abriu para mim uma conta no bar e com o cara da esquina. Meu anjo, meu anjinho, o cara da esquina me dá tratamento de primeira dama do lixo, rainha da sarjeta… Eu adoro, amo governar!
Mas hoje, especialmente hoje, preciso do meu garoto. Nesta noite a solidão me pesa como se a lua em pessoa me pedisse para andar de cavalinho nas minhas costas. E daí, garçom, você entende o quanto pesa um satélite? E eu preciso, preciso explodir. Mas o botão fica lá dentro, entende? Num lugar onde só ele consegue alcançar.
[O GARÇOM FALA COMIGO]
Muito obrigada querido. Então ligue para ele para mim, por favor. Diga que estou morrendo, estou morrendo! Obrigada. Obrigada…
O táxi chega. É o Jurandir. Tento explicar a ele que posso caminhar sozinha até o carro amarelo mas ele faz questão de me conduzir pelo braço. São ordens do meu garoto, ele disse pro Jurandir tratar bem sua garota, mesmo que ela quebre a vidraça da portaria do prédio porque não foi levada ao seu garoto como queria… Sou muito obediente mas quando o assunto é amor faço birra. E por conta disso Jurandir me acompanha até em casa. Meu garoto explicou a ele onde ficava o remédio. Dê-me todos! Eu imploro!!! Ele não obedece. Espero ele ir. Ele se demora um pouco, vasculha minha geladeira e se vai. Não posso viver nem mais um segundo sem o meu garoto. Tento ir até o banheiro tomar o resto do frasco mas desmaio no meio do caminho, me esborracho no piso gelado onde a única coisa que parece quente é o sangue que escorre do meu crânio.

Daniela Mendes