Judite

Fevereiro 18, 2007

Não sou alegre nem triste, sou poeta.
[Cecília Meirelles]

Mal pude chorar no seu enterro… Mesmo tendo a certeza torturante de um futuro noir sem você. Quem mais, querida Judite, poderia notar a freqüência de joaninhas (das tradicionais, flamenguistas, suas preferidas) na lâmpada sem globo daquela espelunca que chamávamos de lar? Era o seu jeito de dar pouca importância a janelas descascadas… Ah, minha amada Judite, teu sono eterno tornou um pesadelo meus sonhos. Mas devo continuar a falar o que comecei… Não te homenageei com lágrimas. Assim fez teu pai que há cinco anos te deserdou daquela herança putrefeita que só as hienas de teus irmãos dão a vida por… Estes riram no teu velório. Ah, sei que você gostou. E até desejaria que eu fizesse o mesmo, eu sei. Porque você se orgulhava de arrancar esperança até daquelas putas ferradas sem nem mesmo plantar. Arrancava e pronto! Por isso eu te chamava de mágica. Mas nem gargalhadas eu pude te dar naquele momento… Como? Estava completamente amedrontado ao te ver guardada naquela caixa. Pobre Judite! Arrancaram com máquina 1 sua vasta cabeleira, passaram acetona nos restos de verniz rupestres de tuas unhas – agora, simples unhas polidas… E aquelas flores espalhadas (como se não bastassem serem reais), nenhuma tiveram a bondade de colocar atrás de tua orelha. Temo por ti Judite. Farás um escândalo no céu exigindo o inferno por estar sem suas armas para seduzir São Pedro. E se tuas bochechas artificialmente coradas substituírem em mim a lembrança de tua bunda generosa cravejada de celulites e registros de tombos? Ah, Judite! Para que chorar ou sorrir se nada posso fazer por ti ou por mim?

Daniela Mendes