O cinema enlouqueceu
Novembro 12, 2007
E se de repente o roteiro regredisse? O escravo liberto, protagonista, voltasse de bom grado a seu cativeiro depois que o rei morresse? Tudo porque ele não pôde levar o cachorro… E dessa vez se amarrasse mais, entregando até mesmo suas possibilidades de fuga à destruição só porque não escolheu ser libertado, mas foi alforriado. E se ele se esquecesse da alegria de ser ele mesmo? Só pelo medo e desamparo de ser entregue à própria sorte? Só porque acredita ser melhor viver sob o comando de um destino determinado por outro. E se o escravo esquecesse que seu dono na verdade está também submetido às leis do acaso totalmente caóticas? E abrisse mão do círculo e até mesmo da linha reta em troca do ponto? Um ponto como uma pedrinha que é chutada de lá para cá. Essa é a escolha de ser pedrinha miudinha. A personagem regride tão completamente em seu roteiro que podendo ser um andarilho, um aventureiro, um semeador, prefere ser um farelo de montanha. Que graça teria este filme? Em que até mesmo seu autor abandonasse o script depois de perceber as intenções autodestrutivas de seu protagonista? Diretores, câmeras, todo mundo desempregado! Por que o niilismo é uma verdade pararemos de reinventar? Senhores, se o roteiro regredisse desta forma tão covarde não existiria filosofia que o justificasse ou salvasse sua integridade. Não seria uma re-volta, tão característica dos círculos. Seria simplesmente uma volta. Ao traçar o caminho que deixou para trás em linha reta, estaria o escravo pisando em suas conquistas como quem esmaga os frutos maduros espalhados pelo chão. Esmagando as mangas suicidas que vislumbraram em belos delírios no chão sólido e sem vida toda uma floresta o escravo seria um traidor. Senhores, este é um filme de terror! Reviver o passado é dançar com um cadáver putrefato de uma dama há tempos falecida. Sim, o tempo muda as coisas e então o que parece velho é novo, me diz o escravo. Pois bem! A vida que havia neste corpo fétido está apenas na sua cabeça, escravo! Mas veja, tudo está morto. A caveira sem seios em seus braços comanda uma ilusão, eu diria. E se mesmo assim, com todos meus argumentos, o escravo decidisse ficar? Ora, meus caros senhores, o ator que faria o papel do escravo não precisaria existir. E esta atriz coadjuvante que lhes dirige este breve discurso pediria demissão. Pois ela não é apenas uma personagem secundária. Ela é uma atriz, uma outra desconhecida que de tempos em tempos assume uma personagem. E agora, vejam só os senhores que bonita e misteriosa é a vida: tão completamente enamorada do escravo a mulher parte para seu destino incerto. Ela se desfaz de suas roupas, mas percebe que o brilho daquele sentimento grudou em seu corpo e a faz reluzente como uma passista nua de escola de samba cravejada de purpurina. Então ela samba, ela samba e já é outra personagem. E dali encontra um Pierrô, ou um gringo ou um mestre de bateria para ser seu par. E enquanto o beija entre lençóis, uma ínfima purpurina nos lembra o abandono do escravo cuja existência parca se dissolveu num brilho.






