O escritor
Janeiro 16, 2009
O escritor escreve porque tem consigo um tipo brando e secreto de psicose. Em seu delírio ele pensa que o que sente é grande. Aliás, mais do que isso: ele supõe que está grávido de um gigante e tal feto se desenvolve vertiginosamente num espaço de horas. Contudo, não é assim como a grávida que se não parir mata o bebê e também a si própria. Não, com o escritor as opções são menos dramáticas. Ele dá a luz pela boca e se não parir fica condenado a uma eterna náusea. Porque o gigante não passa pelo delicado canal bucal e ainda corre risco de arranhar-se nos dentes deturpando-se, o escritor dá a luz aos cuspes, diluindo o gigante aos poucos em tintas de caneta para destilar sua cria no papel letra por letra. Assim como uma sucuri que engole o boi chifrudo, o escritor digere o seu mal estar devagar, linha por linha, até esvaziar-se completamente a tal ponto de nem mesmo reconhecer-se na criatura. E então fica livre até o próximo surto ou gravidez fecundada pelos olhos.






