Perpétua

Fevereiro 16, 2008

- Que obsessão é essa Perpétua? Eu hein?! Nem conhecia o infeliz direito. – chamou atenção o marido.

E ela, buquê de flores do campo nos braços, a procurar a chave do carro, a deixar bilhetes para a babá, quase atrasada, tão pouco tempo que tinha, tantas cobranças, mas a cabeça estava boa para resumir razões determinadamente.

- Disse bem: um infeliz!

Pega o celular enquanto dirige. Não tem medo de multa, de deixar filhos órfãos, Deus cuidaria de sua vida pelo menos até ela poder cumprir a caridade: Fala! Mas rapidinho que tô no transito. Combinou com as meninas do coral da igreja? Ai que lindo! E o pastor? Vai poder? Louvado seja! Consegui um bufê baratinho, uma merreca para cada um. E aquele menino… Não lembro o nome, menina, aquela bichinha… Então, ele disse que vai tocar Chopin no violino. Chique né? Agora eu tenho que desligar que tô dirigindo… Eu sei, mas não posso demorar, tenho que estar lá para colocar a coroa de flores no lugar.

É que o Wagner, pobre moço, merecia. Era daquele tipo de pessoa que se faltasse um dia no trabalho ninguém ia notar. Magrelo, mirradinho, amarelinho, não conseguia nem falar. Não tinha namorada nem esposa e – o mais triste – nenhum parente. Então ela que trabalhava no recursos humanos um dia ficou comovida ao saber que o coitado morreu de ataque fulminante do coração. Ficou muito aflita, ligou pro marido e disse que torresmo era venenoso e que se gente magra tem problema então ele estava em sérios apuros. Mas ainda não era aquilo, não era. Ficou pensando que Wagner ia ser enterrado como um pobre indigente. Ele tinha sim um plano funerário, mas quem iria ao seu enterro?

Ela então decidiu ir ao enterro dele, mas tinha vergonha de ir sozinha. O que falariam dela? Imagina, indo assim sem motivo em velório de rapaz solteiro! Na tentativa de arrumar companhia acabou por comover toda a repartição. Cada um ajudou no que pôde e Perpétua, de repente se viu liderando uma grande festa. Estava tão feliz em proporcionar um dia de glória na vida do Wagner! Nem mesmo parente dela tivera velório tão bonito.

Já se adiantavam as horas quando entrou na capela mortuária uma senhora de semblante e pele caída. Muito abatida e os olhos cheios de lágrimas e piedade, segurou na mão do defunto e rezou baixinho uma ave-maria sob o olhar curioso dos presentes. Terminada reza, olhou para a inscrição na coroa de flores, para a cara do defunto, para a coroa de flores, para o defunto, para a coroa de flores, para o defunto… E conformada deu com os ombros e foi sentar-se alheia a todos numa cadeira. Estava tão indiferente a comemoração à sua volta que ninguém teve coragem de lhe perguntar quem era e continuaram as homenagens.

Minutos depois, dois homens encapuzados com meias femininas e revolveres apontando para todo mundo entraram no recinto fúnebre com a tradicional palavra de ordem: “Quietinho todo mundo aí. Isso é um assalto”. Eram grosseiros e insensíveis, tomando com muita brutalidade e com grande agilidade relógios, jóias e carteiras. Perguntaram de quem era o Vectra e pegaram a chave. Tudo muito rápido e sincronizado, de forma que o assalto não durou nem um minuto, com tempo de sobra para se roubar, inclusive, alguns quitutes e uma garrafa de guaraná. Alguém ainda comentou meio a confusão: “Originais na escolha do lugar do assalto mas muito tradicionais… Não se diz mais ‘isso é um assalto’, mas simplesmente ‘perdeu playboy’”.

O velório se transformou num grande alvoroço. Com polícia, choros e gritos até a completa dispersão dos convivas, restando para o enterro do pobre Wagner apenas Perpétua derrotada em sua missão e a pobre senhora ainda alheia.

Na hora de colocar o homem a sete palmos do chão, ainda uma grande surpresa para a benevolente Perpétua: na lápide de Wagner seu nome viera errado, José Teobaldo de Carvalho Miranda. Já um tanto quanto abalado ela começou a brigar com o funcionário do cemitério descomedidamente. Contudo, foi detida pela senhora que enfim resolveu se manifestar.

- Minha filha, receio que o erro seja seu. Pois eu mesma escolhi o nome de meu filho tal qual era o do meu pai.