Uma garota fodida

Outubro 6, 2007

Eu a conheci no ferro velho, quando fui procurar um lixo para brincar, inspirado pela sessão da tarde que exibira um filme de uns garotos que construíram um avião com coisas jogadas fora. Para minha decepção, depois de muito perambular por ali, não encontrei nem mesmo uma hélice de ventilador. Acho que somos um país tão pobre que não há nada no nosso lixo que possa ser reaproveitado. Com isso, acumulei mais um motivo para esperar ansiosamente que meu pai ganhasse minha guarda na justiça e me levasse para morar com ele nos Estados Unidos.

E foi assim, pensando o quanto os dejetos americanos eram mais legais que os nacionais, o quanto estava farto de viver com a minha mãe e com a minha avó, que ela apareceu do nada e me derrubou no chão. Uma interrogação bem grande vendou meus olhos por um pequeno instante que pareceu uma eternidade. E quando realmente pude ver, o brilho de um canivete confundiu minha visão; fiquei na dúvida se era uma garota! Jamais vira uma daquele jeito. Nem mesmo a minha mãe era assim. Quando se aproximou, não tive dúvida de que era uma menina e não um garoto hippie. Com a outra mão que estava livre, ela revistou, destemida, os meus bolsos. Encontrou meu único um real e mesmo assim ficou aborrecida. Enquanto eu… Bom, o que eu poderia fazer?

Em seguida, com o queixo e a voz me perguntou o que eu fazia ali. E, veja bem, isso me parece estranho também, eu não tive medo. E, apesar da agressão que me deixara humilhado e empoeirado, também não quis me recompor arrancando nela um belo exemplar de dente. Ela era mais alta do que eu, mas era uma garota, eu podia colocá-la em seu lugar com um belo soco. Contudo, esse não era meu estilo e eu apenas lhe contei meus planos de construir um avião. “Nada assim muito elaborado, como um Boeing”, eu disse forjando uma modéstia. Ao que ela riu e comentou sucintamente: “Que imbecil!”. E com esse gesto, desconfio que enxotou minha infância como a um cachorro pestilento.

“O que você sabe sobre vôos imbecil?”. Ela parecia me pedir o soco, bem oferecia a cara, empinando o nariz daquele jeito. Mas eu sabia que podia fazer melhor. Eu era muito melhor, apesar de me sentir acuado e como o senhorio do mais perverso dos demônios. Para não ficar vermelho – gente branca se denuncia assim – eu me concentrei na resposta e tentei dar o melhor de mim. Acho que empinei o nariz igual a ela e mandei ver: “Penso que se o peixe-voador e o esquilo voador puderam fazer adaptações, em sua evolução, permitindo-os planar, por que não um garoto de dez anos?”.

- Que idiota! – ela cuspiu – Você me enche de vontade de te espancar porque você é um imbecil! Com esses óculos fundo de garrafa… Você acha que a feiúra vai te redimir como a um mártir dos patéticos? Você viu a sessão da tarde, né? Tá repetindo tudo o que o personagem falou.
- Tá. Você não está errada, eu tô mesmo citando o personagem, mas o que que tem? E quem é você para falar da feiúra alheia? Já experimentou se olhar no espelho?

“O que?”, ela me perguntou e sem esperar resposta partiu para cima de mim como se fosse me cortar em fatias tão finas como as de presunto que a gente pede na padaria. E apesar do meu medo, eu consegui segurar o seu braço o tempo suficiente para convencê-la a não me matar:

- Espere! – eu implorei – se você não me matar eu posso fazer um trato com você. Eu deixo você ser meu piloto…
- Cara, eu não acredito que você não tenha medo de me irritar tanto!
- É sério, apenas me escute! Me dê uma chance…
- Tudo bem. – ela concordou abaixando o braço – Se for boa mesmo, a idéia, eu não lhe dou a cicatriz na bochecha que eu estava prestes a tatuar. Desembucha.

E então eu lhe expliquei tudo… “a superfície superior das asas dos pássaros é convexa e a inferior côncava, de forma que à medida que o ar se move sobre elas, ele acaba gerando uma elevação… E assim, com um modelo baseado no vôo dos pássaros eu posso criar um avião sem motor, que não demande gasolina podendo voar por longas distâncias”.

- Gênio! – ela ironizou com impaciência – Só que você se esquece que os pássaros são bem mais leves que o ser humano! Dá aqui este rostinho de micróbio que eu quero ver sangue… – lá vinha ela de novo com sua vocação de maníaca do canivete, mas eu sabia improvisar, graças ao meu hábito de ler enciclopédias.
- Sua ignorante! – precisava ser ousado – Então você não sabe que os balões e dirigíveis são construídos a partir do princípio de Arquimedes? Um corpo imerso em um fluido sofre a ação de uma força de empuxo igual ao peso do fluido deslocado… É muito complexo, você precisaria ter noções de física para entender… Eu juro, vai dar certo e eu posso dividir minha glória com você.
- Certo, confio em você…

Ufa! Respirei aliviado. No entanto, quando eu menos esperava…

- …Mas acho que todo homem de verdade merece uma cicatriz.

E dessa vez, por eu estar desprevenido, ela cortou meu rosto pra valer e me jogou no chão com um empurrão. Antes de sumir da minha frente me chutou ainda areia na cara. Eu fiquei lá, com terra e sangue no rosto, chorando feito um bebê. Puxa vida, doeu pra caramba! Mas por outro lado foi legal. Quando voltei para o condomínio, a turma do Parafuso, um menino ruivo que vivia me atormentando, não me agrediu. Quer dizer, nem com palavras! E olha que eu estava sem camisa, tive que tirá-la para estancar o sangue. Ficaram me olhando, só olhando… Eu podia jurar que se perguntavam o que teria acontecido comigo. E pela cara da Manoela, aposto que ela dizia a si mesma que eu devia ter me metido numa briga muito violenta. Nossa! Era muito bom se sentir assim. De repente, era como se nada daquilo tivesse acontecido e eu experimentei o gosto doce de ser respeitado. O machucado continuava doendo, mas eu não tinha mais motivo para chorar, nem para querer me mudar para os Estados Unidos.