A Livraria das Obras Inéditas


Judite
02/18/2007, 9:06 pm
Filed under: Folhetim

Não sou alegre nem triste, sou poeta.
[Cecília Meirelles]

Mal pude chorar no seu enterro… Mesmo tendo a certeza torturante de um futuro noir sem você. Quem mais, querida Judite, poderia notar a freqüência de joaninhas (das tradicionais, flamenguistas, suas preferidas) na lâmpada sem globo daquela espelunca que chamávamos de lar? Era o seu jeito de dar pouca importância a janelas descascadas… Ah, minha amada Judite, teu sono eterno tornou um pesadelo meus sonhos. Mas devo continuar a falar o que comecei… Não te homenageei com lágrimas. Assim fez teu pai que há cinco anos te deserdou daquela herança putrefeita que só as hienas de teus irmãos dão a vida… Estes riram no teu velório. Ah, sei que você gostou. E até desejaria que eu fizesse o mesmo, eu sei. Porque você se orgulhava de arrancar esperança até daquelas putas ferradas sem nem mesmo plantar. Arrancava e pronto! Por isso eu te chamava de mágica. Mas nem gargalhadas eu pude te dar naquele momento… Como? Estava completamente amedrontado ao te ver guardada naquela caixa. Pobre Judite! Arrancaram com máquina 1 sua vasta cabeleira, passaram acetona nos restos de verniz rupestres de tuas unhas – agora, simples unhas polidas… E aquelas flores espalhadas (como se não bastassem serem reais), nenhuma tiveram a bondade de colocar atrás de tua orelha. Temo por ti Judite. Farás um escândalo no céu exigindo o inferno por estar vestida de terno. E se tuas bochechas artificialmente coradas substituírem em mim a lembrança de tua bunda generosa cravejada de celulites e registros de tombos? Ah, Judite! Para que chorar ou sorrir se nada posso fazer por ti ou por mim?

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3 comentários so far
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Acho que a morte permite as maiores confissões, como este.

Beijos!

Comentar por Bruna Maria

Sintonia fina na tristeza de lembranças de morte e dor e tristeza… Veja isso:

A CULPA É DA POESIA.
21.02.07.

Falta que incomoda,
Vazio constante,
Vida plena
de conjunções adversativas…

Tristeza que acompanha,
Olhar crítico perene,
Dureza que constrói
muralhas só pra desafiar…

Escolha insatifesta
de auto-boicote…
Pobre prosa poética sofrida…
Matéria prima em primeira pessoa

Sina do poeta
que não sabe
se reinventar…

Comentar por Débora Piacesi

Documentos requeridos para a certidão de óbito de Judite:
Mapa dos glúteos tatuados pela biografia da moça com todas as vias de acesso, registro de atração erótica e gravitacional dos muitos tombos nas camas, nas ruas e nos diversos vazios.
Declaração de três testemunhas semi-idôneas de que tanto as janelas descascadas quanto as joaninhas ociosas eram visíveis a olho nu, mesmo que nua não estivesse a defunta.
Audiometria dos presentes ao velório, para comprovação de que ouviram mesmo a risada dos irmãos da subtraída, com laudo de maestro capaz de atestar a afinação do riso.

Comentar por Herbert




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