A Livraria das Obras Inéditas


Sou eu a Beauvoir…
04/04/2007, 1:46 am
Filed under: Folhetim

Você partiu com a delicadeza de um gato esta manhã para não interromper meu sono. Sabes que não aprecio tanto dormir quando estou em seu apartamento e que faço questão de cada minuto ao seu lado. Mas o perdôo, porque sei o quanto tem gosto de ser delicado. Você se superou ao deixar o rastro do cheiro de café fresco e a chave da porta dos fundos com a florzinha vagabunda. Desconfio que se faz tão refinado para que eu tenha dificuldades em admirar outro homem. Se for mesmo essa intenção, ainda é cedo para dizer se você foi ou não bem sucedido. Afinal, há dias nos esquecemos de todo o resto, não é mesmo? Mas posso te dar a certeza de que esses seus detalhes é que fazem tudo ser inesquecível tão a priori. Com a chavinha, (azul! Onde mandou fazer?) ganhei certa liberdade de fuçar os seus livros. Me chamou atenção em especial “Os Mandarins” com o recorte de jornal entre as páginas… Você lembra que fez isso? Guardou ali a carta de amor de Simone a Nelson? Me inspirou ler as 855 páginas (é estúpido contar páginas mas nunca li livro tão extenso). Contudo, as primeiras palavras prenunciaram amor à primeira vista e logo o tijolo se fez menos assustador. Fiz mais: seqüestrei-o e, mais uma vez, me refugiei na minha Paris imaginária (já te contei deste hábito aquele dia na festa de aniversário do seu amigo, lembra? O Jogo da Amarelinha, Trópico de Câncer… Eu te falei…). Enfim, talvez a saudade seja uma coisa boa… Talvez seja bom para avaliarmos o efeito do nosso encontro. Até segunda-feira,

Sexta-feira, 26 de setembro de 1947*

Nelson, meu amor,Foram só vinte e três horas até Paris, aportamos às 6h, amanhecia. Eu estava muito cansada depois de duas noites sem dormir, bebi café e tomei dois pequenos comprimidos para me manter acordada durante o longo dia. Paris estava muito bonita, um pouco nevoenta, com um céu cinza, suave, e o aroma das folhas mortas. Fiquei muito contente ao descobrir que tinha muito a fazer aqui, tanto que só devo ir para o campo o mês que vem. Primeiro, o rádio dá ao Temps Modernes uma hora inteira a cada semana para falar sobre o que quisermos, da maneira que quisermos. Você sabe o que significa a possibilidade de chegar a milhares de pessoas e tentar fazer com que eles pensem e sintam do modo que acreditamos seja correto pensar e sentir. Isso tem de ser manejado com muito cuidado, e hoje de manhã tive uma espécie de conferência para falar sobre o assunto. Segundo, o Partido Socialista quer nos consultar sobre a possibilidade estabelecer uma conexão entre política e filosofia. Parece que as pessoas começam a acreditar que as idéias são algo importante. Terceiro, havia inúmeras cartas de todos os tipos e muito trabalho para tocar na própria revista. Eu estava feliz, quero trabalhar, trabalhar muito. A razão por eu não ter ficado em Chicago é essa minha eterna necessidade de trabalho, de dar sentido a minha vida pelo trabalho. Você tem a mesma necessidade, e essa é uma das razões pelas quais nos entendemos tão bem. Você quer escrever livros, bons livros, e, aos escreve-los, ajudar o mundo a ser um pouco melhor. Eu também quero isso. Quero transmitir às pessoas minha forma de pensar, que creio ser a verdadeira. Eu devia desistir das viagens e todo tipo de diversão, devia desistir dos amigos e dos encantos de Paris a fim de poder ficar para sempre com você; mas não poderia viver somente de felicidade e amor, não poderia desistir de escrever e trabalhar no único lugar em que minha escrita e meu trabalho talvez façam sentido. O que é bastante difícil, pois, como lhe disse, nosso trabalho aqui não é muito promissor, e o amor e a felicidade são coisas tão verdadeiras, tão seguras. E, no entanto, ele tem de ser feito. Entre as mentiras do comunismo e do anticomunismo, contra essa falta de liberdade que grassa quase em toda França, algo deve ser feito por pessoas capazes e que se importem com a situação. Meu amor, isso não cria nenhuma divergência entre nós; pelo contrário, eu me sinto bem próxima de você nessa tentativa de lutar por aquilo que julgo verdadeiro e bom, seguindo seu exemplo. Mas, ainda assim não pude evitar o choro convulsivo esta noite, já que passei momentos tão felizes com você, amei-o tanto e agora uma distância enorme nos separa.

Sábado – Estava tão cansada que dormi 14 horas, só acordei uma vez durante a noite para pensar em você e chorar mais um pouco. De tanto chorar, estava tão feia esta manhã que, ao cruzar com Camus na rua, ele me perguntou se eu não estava grávida: segundo ele, minha cara não deixava dúvidas!

*Essa carta foi escrita por Simone de Beauvoir a Nelson Algren. Ela descreveu seu longo e apaixonado relacionamento com ele em seu romance Os Mandarins (1954). Simone tinha 39 anos quando se encontraram, estava envolvida com Sartre e escrevia O Segundo Sexo. Pelas primeiras páginas do livro e da carta fiquei tão identificada que posso dizer que entrei num momento Beauvoir… Adoro quando um livro acompanha minha vida e quando minha vida acompanha um livro… Adoro me fantasiar!

Daniela Mendes

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1 Comentário so far
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Simplesmente ADORO “Os Mandarins”! — na minha opinião o melhor romance de Beauvoir.
Foi meu primeiro contato com a escrita de Simone, e a espessura do livro não me “assustou” nem um pouco, fiquei até com pena de terminar quando já estava perto do final…

Comentar por Wagner




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