A Livraria das Obras Inéditas


Bolero
11/14/2007, 11:38 pm
Filed under: Folhetim

Se você me falasse de Dolores, eu entenderia uma mulher… Algo assim como um buraco de onde arrancaram um pinto. Não era Luciana, que conheci aos vinte um por causa do Hendrix; que viajou comigo para o Marrocos; que provocou um desentendimento de anos entre eu e meus pais; que adotou um cachorro e morou comigo. Não, Dolores era uma mulher. Do tipo que nunca me atraiu. Cara com maquiagem pesada, batom fedorento e broche de Nossa Senhora do Sei lá das Contas na blusa do Sex Pistols. Não, definitivamente ela não era Luciana com seu sorriso puro de tão alvo, o cabelo cheiroso sem nenhuma tinta, calça jeans e camiseta branca Hering sem sutiã. Lu cuidava de mim, apertava o baseado como ninguém, providenciava almoço e sempre sabia onde estava minha toalha. Dolores eu me aproximei no dia em que estava cansado de sentir pena de mim quando Luciana me tirou da vida dela.

(Assim, foi de um susto. De repente me vi morando num flat, sem nenhuma personalidade, onde passava a maior parte do tempo listando vantagens da solidão. Daí quando cheguei na vantagem 562 – que pra quem não sabe é poder sair de casa sem rumo em busca paraísos artificiais – foi quando entrei naquele bar. Nem era fim de semana, nem tinham opções e eu já começava a me deprimir ao lembrar a ingratidão de Luciana. Sabe como funciona essa ladainha? Quando você está a ponto de compor uma música para o Reginaldo Rossi é porque está começando a ficar em perigo…)

Dolores estava no balcão, do jeito que descrevi para vocês. Tinha algo como um copo de conhaque ou uísque na frente, um cigarro entre os dedos e era popular entre os garçons. Chamava atenção dos outros homens, mas parecia tão indiferente a eles… Sabe quando mulher faz de boba quando recebe uma cantada e transforma o desconforto de um “não” numa piada leve? Isso! Era assim que ela fazia com os caras. Parecia que tirava suas máscaras. Eles chegavam Brad Pitt, Hugh Grant, Rodolfo Valentino, ou sei lá o que, e saíam João, Marcelo, Gerson e Fernando. Por isso fiquei à vontade de me sentar ao lado dela no balcão e implicar com o seu broche católico pendurado numa blusa de uma banda punk.

Foi assim… Começamos a falar de Nietzsche primeiro, depois de nossas vidas, ela parou de tomar bebidas quentes, dividiu uma cerveja comigo, deu um “deixa disso” nas minhas mágoas de corno, dividimos um hambúrguer, eu pedi pra ela guardar meu celular na bolsa amarela de pelúcia que ela carregava, aí fomos comprar um pó e na hora que fomos ao banheiro juntos – pum. Ela me agarrou.

O beijo mais maravilhoso que já me roubaram. Eu, com trinta anos, nem imaginava que se podia beijar assim. Quis comer ela ali mesmo, nem me importando com a ardência do cheiro da urina que vinha do ralo. E por falar em narina, nesta hora o pó se espalhou no chão molhado. Nem ligamos! Ela me apertava como se fosse furar minha pele com aqueles dedos sem unha e com restos de esmalte. Enfiei o dedo na buceta dela e… não deu… Não deu para ser ali. Dolores era bem cheinha e eu que tenho problema de coluna não estava conseguindo uma posição, entende? Aí como a porra do branco já tinha ido embora, resolvi levá-la para minha casa. Lá fizemos direito e, quando paramos para dormir, tive que me levantar para fechar a cortina porque o sol que entrava por uma fresta nos fritava a pele.

Não, Dolores não era Luciana. A Lu tão calada jamais diria no dia seguinte que me amava. Fazia mistério, nos comunicávamos telepaticamente sobre sentimentos… Ficávamos horas nos olhando fundo, lá dentro do olho um do outro, contando cada risquinho da íris. Ás vezes passávamos dias em silêncio… Eu jogando meus jogos no computador e ela lá no quarto, escutando música, fumando seu baseadinho, quietinha… Às vezes, fim de semana saía, ia para festinhas com as amigas lésbicas e voltava só no dia seguinte. Me surpreendia quando, não raro, trazia uma destas amigas para casa. Luciana era perfeita, única!

Dolores enchia a casa! Era uma sensação esquisita quando ela estava lá. Parece que alguém jogava baldes de tintas coloridas nas paredes. E ela ficava andando de um lado para o outro pela casa, nua, com aquele corpo maravilhoso de musa barroca. A bunda grande, os seios fartos, o canto insistente, os interrogatórios e as investigações para ver se alguma mulher que não ela tinha estado em minha casa. Me dava sustos de madrugada me acordando para fazer amor ou para dizer que algum ladrão entrava na casa… Jamais me chamou de Gustavo, era sempre meu homem, honey, baby ou xuxu.

Meu apelido é Policarpo, Polí, na turma de infância… Luciana era amiga de uma das garotas dos caras, mas sempre me chamou de Gustavo. Nunca tivemos aquelas coisas de apelidinhos de casal. Se ela era assim, eu também jamais me importei em chamá-la de outra coisa que não Lu, mesmo assim de vez em quando e por preguiça de pronunciar seu nome todo. Puxa vida! Um mês e Dolores já me chamava de um monte coisa. Além destes que eu citei, eu era Quéco, Dindoso, Coiso, Coisudo. Eu só não inventei um nome pra ela também porque a criatividade dela me acanhava.

E Lu era magra também, seios lindos, pequenos, pontudos. Bunda proporcional, tudo proporcional entende? E tocava violão, mas cantava muito baixinho e não gostava de tocar com ninguém por perto. Eu sabia exatamente quando ela queria fazer amor e parecia uma menininha sempre alerta e atenta a tudo que eu falava, fosse poesia, fosse filosofia, fosse uma história.

Dolores não! Dolores não concordava com a maioria das coisas que eu dizia e criticava meu gosto musical. Cantava alto enquanto lavava louça. Via valor em Roberto Carlos, queria me fazer entender Tropicália, odiava Rolling Stones e rock só se fosse punk. Uma coisa esquisitíssima era o case dela que ela ostentava com muito orgulho. Comer fora nem pensar, adorava cozinhar e vivia arrumando a casa, dizendo que as coisas tinham um lugar. Gostava de lavar meus cabelos, achava meus amigos chatos e desinteressantes, não falava inglês, arranhava um francês… Tinha também os lances dos carinhos. Inventava umas coisas tão inocentes que eram altamente sensuais. Sei lá explicar. Com ela em casa eu não fazia mais nada! Tinha tantas histórias, tantos livros, tantas poesias… Então… ela também se dizia poetisa…

Olha, meu amigo, eu poderia ficar falando aqui a vida inteira das diferenças destas duas. Apesar de com Luciana eu ter vivido dez anos e com Dolores apenas dois meses. E eis aí onde eu quero chegar!

Luciana voltou para mim e, claro, eu a aceitei de volta. Eu já estava separado de Dolores. Ela me deixava louco e até quebrou uma xícara na minha casa! Bléing! Era de porcelana… Tudo ciúmes. Ela sabia que, apesar deu sempre amar Luciana, ela tinha tudo para me conquistar. Ela me conquistou? Não. O tempo que esteve comigo me enlouqueceu e foi realmente um alívio quando ela disse que não queria me ver mais porque tinha o coração partido. Ela disse coração partido, cara! Quem fala assim nos dias de hoje?

Não vou dizer que eu não sofri… Porra, cara, eu sofri quando ela se foi. Ela me atazanava as idéias, mas me deu um vazio ruim aqui no peito. Não foi como quando a Lu me deixou, mas foi foda! Só não foi pior, porque eu te contei: pouquinho de tempo depois eu e a Lu reatamos. Sim, de repente, a mulher perfeita, tudo que eu queria estava de volta.

Então, o que que eu estou fazendo aqui, embebedando-me ao invés de estar em casa com Luciana? Afinal estamos de lua de mel… Mas eu estou aqui, com você um completo estranho, enchendo a cara porque?

– Porque você está procurando Dolores, claro…

– Exato.

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