A Livraria das Obras Inéditas


Prefácio
05/10/2008, 9:57 pm
Filed under: Hibris

Estou prestes a fazer mais uma viagem emocional ao barroco. Não faz tanto tempo que estive lá, tampouco é a inauguração de um fato ou experiência, mas somente quem já viveu naquele lugar sabe exatamente como ele se renova em nós. E está frio, muito frio. Zéfiro nos invade e provoca verdadeiras nevascas na barriga e você nem mesmo sabe exatamente por que. Contudo, há algo que nunca consigo expressar… Se você não entender esta minha tentativa de mais uma vez descrever, leia Otávio Paz, que conseguiu racionalizar a coisa toda. Mas a subversão temporal, os paradoxos, a promiscuidade, a afetividade telúrica, a fealdade embriagante, a fugacidade da mágica, o entorpecimento da razão e tudo mais provocado pela presença ambígua da arte sacra, silenciosa e cúmplice a nos influenciar dissimuladamente, isto é para poucos.

É preciso ter imprimido seu DNA em algum paralelepípedo, em algum bueiro, parede ou banheiro fétido de algum bairro marginal. Estou falando de mijar nos seus cantos escuros devolvendo com sua marca as formas pela qual se deixou embriagar. Vomitar o jorro de alguma experiência que ultrapassou os limites de tudo que já se imaginou fazer. De deixar para trás alguma lágrima de um coração partido ou um amigo ido para a inevitável morte. De ter corrido perigo numa madrugada ao fugir de algum ser endemoniado. De ter deixado a lembrança do pano branco de uma saia rodopiando em alguma batida de alfaia.

Para se manter de pé no barroco é preciso ter uma personalidade forte. Os fracos lá não sobrevivem, sucumbem como musas tísicas do romantismo, seres sem graça, de liberdade ilusória, sempre em busca de um ideal que justifique sua covardia. O barroco não admite tal comportamento. Ele derruba os fracos, que sucumbem ao menor contato de sua ordem caótica. Geralmente os aventureiros que por lá passam não entendem que não se trata de um simples embriagar-se. Nada pode tomar o barroco. Do barroco só se compartilha, só se torna cúmplice. Processos apenas viáveis pela ação criativa de viver sempre se imprimindo no mundo, procurando deixar em cada esquina um pedaço da sua alma, doando-se acima de qualquer lógica para receber toda a potencialidade das entrelinhas e dobras do barroco.

Há que se acreditar com toda força dos sentimentos em Cristo e jurar amor a ele. Ao mesmo tempo há de encontrá-lo rodopiando num terreiro de candomblé e não se importar muito por quem se foi influenciado, ou de que povo pertence determinada cultura, ou se está sendo livre ou não. Não se deve preocupar se o passado recente faz parte de uma vida onírica ou de vigília. O barroco rejeita racionalismos e definições, até de liberdade ou potência. Para se manter de pé no barroco, há de apenas ser o que der e vier. Ver cada filosofia se quebrar como mármore e descobrir que cada caco pode virar a qualquer momento um monumento. Ver o universo num pequeno copo de cachaça e dar um ritmo a ele nos mistérios de um terço. Isto é viver o barroco. Pena que para poucos e amaldiçoados que como eu são marcados pelo gosto agridoce de sua paixão e demência.

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1 Comentário so far
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me sinto amaldiçoada pelo barroco que me invade. sem escapatória permaneço lúgubre. infeliz. a foto e o texto tocaram em pontos que fazem as lágrimas sair. mais uma vez.

Comentar por Marcele




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