A Livraria das Obras Inéditas


Dolores
06/23/2010, 3:46 am
Filed under: Capítulos perdidos

O vestido era preto bem conservado. Portanto, velho sem ser preto acinzentado. Tinha certa rotina na lavanderia. Uma vez Dolores mandou tingi-lo para renová-lo. E era como um chambre elegante: corte preciso, de linho e mangas compridas com botões madrepérola na frente. Bem prático de se vestir numa morta. Antes, ela o conservava em segredo, mas agora sentia orgulho de si mesma. Bem fechado no pescoço, o vestido tinha uma gola de renda separada com duas tiras de fita para se amarrar na nuca. Era guardada separadamente numa caixa de sabonete floral e sua cor branca, não bege, nem encardida, muito bem alvejada, sem danificar a estrutura, com desenho de flores e folhas.

O cabelo de sua mãe, no entanto, estava encardido pelo louro e não teve jeito mesmo de ficar completamente alvo. Embora brilhasse na última melhora repentina, agora era opaco. Dolores fez um coque hermético, muito digno, unindo todos os fios. Nem se importou com o melindre que seria a operação de acomodar o corpo no caixão sem despentear sua mãe.

Os olhos castanhos ficaram tão pretos que tornavam a parte branca deles alva como o das bonecas. Foi Dolores mesmo que os cerrou para sempre como quem faz desaparecer borboletas na palma da mão. Nunca mais os veria, desde sempre brilhantes, mesmo por baixo das pregas de rugas e dos cílios desgastados. Chorou com cuidado para não desrespeitar com lágrimas salgadas e quentes o corpo frio de sua mãe.

E a boca, que raiva! Um sorriso de sarcasmo, um sorriso de Cheshire. Parou de chorar. Como era maluca essa Dona Ana!

Dolores se aborrecia. Estava nervosa, preferia estar triste a nervosa. Mas não conseguia se controlar. Os homens da funerária chegaram e fizeram-na retirar o vestido. Ela teve muito trabalho para vesti-lo sem amarrotar! E ainda nem conseguiu manter o coque. Estes carniceiros, insensíveis de tanto lidar com a morte… Disseram que com o calor que fazia aquele dia, se não tomassem os cuidados de praxe, urubus estariam sobrevoando a capela. Que absurdo falar desse jeito! Teria que passar o vestido de novo. E era tão difícil que poucas vezes fizera isso em casa, sempre mandava para a lavanderia. Carniceiros de uma figa! E brigou com Rosário que faltou também com o respeito falando da calcinha da avó. Onde já se viu? Enterrar alguém sem calcinha?

Iam preparar sua mãe na funerária, explicaram. E querendo se retratar do desrespeito, disseram que Dolores não precisava se preocupar com nada, que tudo estaria pronto lá na capela mortuária. Como se ela fosse idiota! Respondeu a eles que era bom mesmo, pois ela estava ciente de todas as cláusulas do contrato. Estava nada! Quem perde se quer um momento da vida lendo plano funerário? Se não fosse a má experiência da morte do marido nem mesmo faria este para a mãe.

Depois que eles levaram o corpo nu da falecida até o carro refrigerado, Dolores ordenou que eles esperassem na sala. Ela passaria o vestido e o prepararia novamente. Eles tentaram dissuadi-la dizendo que era trabalho deles também. Mas como confiar? Dolores insistiu como num princípio de escândalo. Mas Rosário diplomaticamente logo contornou oferecendo café. Café preto, preto e brilhante na porcelana branca do aparelho de chá inglês. 

Enquanto isso, Dolores retirou os sabonetes da caixa, onde ficava também a gola do vestido, e acrescentou ao conteúdo dela, como se fosse uma medalha de uma farda, o terço de madeira que estava na parede. Ficou mais calma porque pararam de fingir que tudo aquilo era normal. Foi recuperando o equilíbrio à medida que alisava o linho do vestido na área de serviço. Por fim, fez-se um silêncio deixando no ar somente o cheiro de vela usada com bombril para limpar o ferro de passar roupas.

 

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