A Livraria das Obras Inéditas


Don’t stand so close to me
06/24/2010, 2:21 am
Filed under: Capítulos perdidos

Epaminondas começou a ler os trabalhos dos alunos. “Don’t stand so close to me” vinha bem baixinha do rádio da funerária. Gostaria de não escutar. Glorinha entregou o trabalho mesmo depois de ele dizer que não a reprovaria. De certo ela queria chamar atenção para si.

Mas lá já estava ele admirando sua pupila. Como uma pessoa tão passional podia direcionar de forma tão magnífica seus sentimentos? Identificação amorosa… Paixão do índio pelo colonizador… Do índio de Alencar! Sorriu o professor… Paixão do colonizador pelo negro. Putaria de Jorge Amado. Um pouco exagerado… E enfim, as teses de hibridismo… tam tam tam… Após esta leitura dinâmica Epaminondas tiniu a admiração soterrada a dois palmos de coração: Que escrita! Que paixão! Que menina!

Ah! Quando foi mesmo o momento em que Epaminondas se esqueceu disto? Foram as fofocas? Ou foi o dever com a esposa, o dever de marido diante do câncer da companheira? Na saúde e na doença… “Veja bem, benzinho…”. Não! Glorinha não compreendia. Não havia mesmo jeito de administrar as fantasias de menina. Uma pena… Concluiu pesado para depois lembrar leve: uma vez foram para um congresso no litoral… Era bom namorá-la, dividir, exibir-se, dançar, molestá-la, criticá-la, ensiná-la, rir, emocionar… A vida era perfeita. Claro, uma ilusão! Glorinha não entendia que ele queria guardá-la do mundo sem música, da comédia cotidiana dos costumes, dos lançamentos do diretor ban ban ban do momento nos “cinemas mais longes de você”. Comemorações burocratizadas para o bel prazer da matemática dos relacionamentos. O celular pedindo para trazer mussarela antes de chegar em casa. Não, ela não merecia. Inda bem ele tivera a sorte de não ter filho! Só um cachorro. Foi até a cozinha:

“Vera, por acaso ligaram da prefeitura?”

“Não”.

Ela estava fazendo um bolo de laranja. Juntos olharam para dentro do forno: sem dúvida, uma perspectiva de sucesso. Epaminondas decidiu tomar um banho. Já estava quase na hora de ir trabalhar. Prometeu estar pronto antes do “mimo” terminar de crescer. As horas voavam no horário de verão.

Já no chuveiro, pensou que gostava quando Glorinha lavava o seu cabelo. Ela derramava o xampu e dava o frasco para ele ler em voz alta. “Pra que?” Ele perguntava. Adorava estas brincadeiras. Sentia-se como num filme da Nouvelle Vague. Bem que ela tentava disfarçar a fonte e mostrar-se original: “Só você quer influenciar. Também quero te colocar uma mania”. Uma menina! E ele um homem, fazendo de conta que tudo era espontâneo. Cabelos com mechas sublimes recupera luminosidade ressacado raios uv cloro brilho contraste tratamento específico pesquisa nova linha tecnologia agentes catiônicos adere nutrindo reparando devolvendo vitalidade e etc. Promessas de um frasco de xampu e essas coisas. Aaaah… Terminou seu onanismo, ficou mais uns instantes para se despedir da hora relaxante e ainda enrolado na toalha gritou para Vera.

“Tá pronto?”.

“Daqui a pouco”.

“O que você está fazendo?”

“Tava indo colocar umas roupas pra lavar. Por quê?”

“Nada não”. Correu para o celular.

– Alô. Benzinho?… E aí? Tudo bem?… Sua Vó? Não diga!… Tô te ligando porque acabei de ler seu trabalho… Mais ou menos. Você podia incrementar com uma perspectiva histórica… Tipo o que? Bom, no século passado tinha uma conotação negativa esta coisa de mestiçagem e… Por quê? Benzinho, a gente não deve misturar as coisas. Acima de tudo você é uma ótima aluna e eu sou seu professor… Então. Pensei numa teoria biológica para incrementar, para dar uma metáfora científica. Isso impressiona bastante, confere certo eruditismo… Não! Você tirou uma boa nota!… Você não quer mexer no texto? Não prima pela perfeição?… Mas, benzinho, eu pensava em publicá-lo. Quer dizer, seria bom pra você publicá-lo… Ora, logo isto passa. Não misture as coisas. Isso não combina com nosso relacionamento maduro… Você é melhor que isto. Mas e então? O que você acha da gente publicar um artigo?… Claro! Você se superou… Mas é que eu falava de detalhes… Não, é porque eu sou um chato. Essa é a verdade. Você topa?… É isso aí. Essa é a minha garota!… Sim, sem ressentimentos… Ok… Olha, eu estava muito mal aquele dia… Tinha brigado com a Vera. O humor dela influencia na doença, sabe? Uma merda!… Ah, até que ela está bem. Está super animada porque o médico falou que o cabelo não vai cair… Pois é! Olha só. Acontece de às vezes não cair… Eu também nunca havia ouvido falar. Mas e então? Quando a gente se vê?… Maravilha! Combinado então… Ok, do jeito que você quiser… Ah, Glorinha! Puxa vida!… Sinto sua falta, sabia?

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