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Gênesis 2 [Pentateuco]
04/10/2011, 11:22 pm
Filed under: A Bíblia dos céticos

A vida passava como as páginas de um livro… Um livro sem capítulo folheado por um analfabeto. Foi essa a recompensa da razão, uma dama ingrata e viciante. Mas também foi num tempo assim que ele recriou-se; funcionário da morte, a patroa não mais lhe concedia a indolência. O peso que o segurava ao chão se desmanchava no ventre das traças de modo que qualquer suspiro lanceado levaria consigo todo o resto do corpo preparado, desde os tempos esquecidos, para ferir a vida.

Seria necessário tinta? Madeira? Mármore? Metal? Palavra? Som? Carne? O que? Perguntava… E o silêncio, pai de toda meditação, respondia mas ninguém jamais decifrava seu dialeto, apenas intuía… O homem ignorava quando devia trabalhar e foi assim que ganhou peso suficiente para voltar a terra sem poder sentir o chão, apenas o tocava.

E para onde quer que olhasse só via chão. Chão feito de brita triturada misturada a piche. Asfalto, assim surgiu a idéia. Além deste asfalto, acima e do lado só céu. Corpo azul cravejado de nuvens  alegres que viviam dançando sem nunca chorar. De vestidos leves e alvos sem nunca se turvar. Nuvens refrescadas e risonhas! Céu furado donde vazava uma luz em forma de funil. Luz que todo o asfalto bebia. Sol! Veio-lhe a idéia. Quem furou o céu? O silêncio ficara para trás. O homem ignorava quando devia trabalhar e, por isso, agora já tinha peso suficiente para sentir o chão.

O buraco do sol foi aos poucos se derretendo pela parede do céu e o rasgado se fundiu de tal forma que tudo estava escuro novamente. O firmamento se confundia com o piche do chão e todas as coisas, inclusive ele, em luto se transformaram em tição. De tal forma o azeviche tomara o mundo no de repente e no tudo que agora o homem podia ver o que sua pele guardava por dentro. Oras! Mas onde estava sua semente? O silencio que só andava no escuro respondeu, mas… O homem ignorava quando devia trabalhar e com isso ganhou tanto peso que necessitou andar.

Era tudo ainda tão novo e perfeito que não existiam rugas em que tropeçar e valia nenhuma tinha nem mesmo o vislumbre. Mas como que para contradizer a resignação uma bola feito um lustre redondo se acendeu no céu enlutado. Lua! Veio-lhe a idéia. Foi ela quem fez o lençol negro mais transparente, descobrindo nuvens espiãs por detrás dele. Afinal, de quem seriam aqueles olhinhos brilhando sobre a cabeça humana? Ficou irritado. Que elas o observasse problema nenhum tinha, mas que fizessem isso dissimuladas ele se incomodava. Por isso quis apagar a lua. Onde estava o interruptor do mundo? O homem ignorava quando devia trabalhar e ganhou tanto peso que começou a escutar.

Aquela coxia de um espetáculo que nunca parecia começar: o capricho das nuvens mudando de vestidos toda hora… O vento alfaiate correndo e se lamuriando para lá e para cá em função daquela futilidade vaidosa… O barulho do rastro das fazendas de algodão… As risadinhas bobas por de trás da cortina negra… E o silêncio que nunca se calava – zuimimimuim, etc… Tudo o deixara em estado de tamanha angústia que furar o céu novamente tornou-se uma urgência. Talvez se jogasse uma pedra. Onde existem pedras? Zuimimimuim, palpitou o silêncio… O homem ignorava quando devia trabalhar e ficou tão pesado para voar até o céu e abrir uma brecha para o sol que só lhe restava como solução libertar o verbo.

E do verbo o céu se rasgou e liberou a luz novamente. E o tempo passou a ter como referência a dilatação do céu. Muitas densidades somar-se-iam ao homem que ficou tão poderoso que escravizou o galo para que berrasse em seu lugar e rasgasse o teto do mundo toda vez que este se fundisse.

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