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Exodo [Pentateuco]
04/12/2011, 11:21 am
Filed under: A Bíblia dos céticos

Se, por um lado, a alopatia lhe mitigava os cansaços corporais, por outro, a alma, pela linha invisível do sonambulismo, sortia passado e presente sem reconhecer poente ou nascente dia. Assim não possuía meios de contar o tempo e Sondaia, quieta, só usava do corpo as mãos, para acender e apagar o sol pelo interruptor do mundo. Seu prestígio era pelo fato dela ter criado a taxonomia e por ser sobrevivente de uma hologênese. Era uma dessas espécies de flor de amaranto, com fruto holocarpo, sem a propriedade de  sacarização, assim se definia.

Contudo, num dia nem tão belo, as cortinas da janela cevaram a luz em seu quarto e do pára-ombro o galo surgiu com um recado que lhe crivou o vaso. Disse:

 –   Estando a bela Sondaia ad quem, solicito-lhe presença para fazer existir com propriedade tudo que plantei, criei e construí. Causa debendi, creio que deves seguir o caminho que o galo lhe indicar para por nos termos este que está a quo.

Sondaia respondeu-lhe com graça, porém não sem escárnio. Afinal, tempos não sorria, pelo menos não desde aquela vez que um boi lhe varreu com os cílios as solas dos pés por engano.

 –  Quem és, entômica criatura, para me impor causa debendi? Logo você que se deixou lixar os bicos pelo homem! Pois vá abrir caminhos para o sol e me deixe em paz!

 O galo pacientemente então respondeu:

 – De minimis non curat praetor e cá estou apenas em cumprimento de missão. Tu ignoras forças que me ventaram e empurram este mundo até você. Não podes mais prestigiar da taxonomia como se essa fosse um pertence. Há entre as coisas do mundo alguém que reclama para si tudo que o planeta acumulou. Eis o destino: cor unum et anima una! Este ser é poderoso porque aprendeu a manipular as águas. Ele pode represá-las com tal vigor que cria desertos e move dilúvios em correntezas tão vigorosas quanto passíveis, pois, de talhar uma montanha ao meio. Eu mesmo já vi uma dessas torrentes espraiar de tal forma um pequeno monte de bauxita a ponto de ele ser reduzido a um mísero plano donde, depois de minha morte, ninguém mais guardará lembranças. Todas as outras coisas deste mundo estão cedendo ab hoc et ab hac ao homem. E as que resistem, pobrezitas, são exiladas no reino do invisível.

 A dama solitária então percebeu a gravidade do que se passava e resolveu então, consentir num sussurro:

 –          Abyssus abyssum invocat…

 E resignada, temente ao desconhecido que não controlava afogou o riso na escuridão dos olhos e seguiu, numa jangada hermética o galo papudo. Conheceu, no entanto, a locomoção e isto foi, ironicamente, a coisa mais maravilhosa que lhe ocorreu. Seu algoz era, que surpresa, o redentor. No caminho tomou decisões: entregou sem lamento todo o seu dote, tudo que construíra, ao homem e ficou tão leve que podia voar.

 Por isso a sua palavra se reduziu a um chirrio e os braços em penas se transformaram numa asa. Debaixo das estrelas é que ela preferia vadiar e descobriu o mistério da beleza: fingir-se distraída de seus encantos! Mas isso já é outra história…

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