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Levítico [Pentateuco]
04/13/2011, 7:15 pm
Filed under: A Bíblia dos céticos

Um olhar só perde o silêncio se for compartilhado com outro. Caso contrário goza-se dos mais profundos mistérios. Por isso, quando outros homens foram brotando de jaz-idas fontes e a intuição distribuiu-se entre os iguais, viu o primeiro homem com obscuridades ameaçadas. Como, a partir de então, poderia garantir eternidade se se ressaltasse a rapidez do tempo na coloração de seus cabelos? Como legitimar as suas criações? Como proteger os próprios irmãozinhos inferiores (por ordem de chegada e conseqüente ingenuidade) da exultação das quimeras? E a concupiscência do belo? Eles teriam a sabedoria para não desgastá-lo? Eis que era preciso frear o cingidouro das voltas do mundo.

A primeira medida foi tomar para si os dotes de Sondaia* e depois de conseguí-los organizou todos eles em ordem própria. Pensou ser isto suficiente para construir uma fortaleza, mas ao encontrar os seus ele teve grande imprevisto: todos os umbigos caídos, pisoteados como chicletes na calçada por uma multidão em estado de lesa-majestade. Homens se arrulhavam ignorando espaços feito formigas que disputam os restos de um gafanhoto sem vida. Uma cena que imobilizou o homem primevo embaralhando-lhe a razão pela rijeza do espetáculo do susto. Por pouco ele não se uniu ao gesto coletivo, apenas se deteve pelo amor maior que tinha ao pastoreio.

Admirável eram as bocas confeccionando interjeições sem se dar conta de palavras, o que sugeria uma satisfação jamais vista naquele mundo! Mas também assombroso era o fato. Daquele jeito a humanidade não passaria de um dia. Eram tez tão delgadas que poderiam se partir com a mínima sanha a mais. Tanta vitalidade e fragilidade juntas, antes de desperdiçar-se em existência fugaz, poderiam ser administradas e rendidas a favor do maior de todos eles, o homem primevo. Jamais, justificava o primeiro homem, poderiam os inocentes, com mesma maestria e sucesso, cometer erros ou se crivarem de chagas letivas. As irrisórias gentes não avançariam adiante no destino ao se exporem às canículas imprevisíveis dos primeiros tempos. Tanto frenesi dos irmãos só dava força à inaptidão para vida. O sucesso da humanidade era tão possível quanto o fato de uma boana se organizar em fila horizontal para sincronizar a ação das asas.

O homem primevo, convenceu-se, era a única salvação para seus seguidos, mas era preciso, antes de salvá-los, aprender a convencê-los de tal evidencia. Assim foi ter com o sol para tomar lições de regência de heliotropismo para atrair os irmãos como o astro fazia com os girassóis. Na primeira negativa do astro, que duvidava da pureza dos sentimentos do homem adâmico, seu aspirante a discípulo questionou que nobreza teria a lâmpada para usufruir de tal ensinamento do sol só com o intuito de atrair mariposas enquanto ele possuía ambições bem maiores? A resposta do astro-rei foi subtraída às futuras gerações por motivos misteriosos. O que se sabe é que, por impropriedade de paciência, o homem ameaçou o mestre. Disse que, caso ele lhe negasse ensino, encontraria custasse o que custasse o interruptor do universo e estrangularia o galo com uma só mão. Feito que superaria até sua irritação com a noite pelo puro deleite de desaforar o astro.

Diante de tal molecagem o sol cedeu. Eis então como os termos foram postos: a multidão, em círculo hermético, petalou-se em torno de um miolinho, que era o homem original. Assim ela só poderia ver a si mesma ou às outras coisas se este permitisse. E seguia inocentemente, em paz, sem se dar conta de criações maiores, como a fraternidade e a paternidade.

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