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Números [Pentateuco]
04/14/2011, 12:45 pm
Filed under: A Bíblia dos céticos

Trecho retirado do capítulo do Números ou um pequeno tempo para a publicidade de jeans, desodorante, refrigerante ou tudo aquilo que couber.

Sempre três vezes. Ela foi à casa do recente ex-namorado guiada por uma forte carência. Carência esta alimentada pela perda da metodologia de esquematizar maneiras para suprir-se. Estática diante da campainha, a única que intermediava o passado e o presente, ela medita sobre uma forma de ser racional, como se razão evitasse sofrimento. Olha para rua em busca de uma resposta. É assim que uma idéia lhe ocorre: “Eu apertarei a campainha se dentre três carros que passarem um for vermelho”. Não… Hesita. Por que três e não quatro?Afinal quatro são os pontos cardeais, quatro são as estações do ano, quatro são os elementos – água, terra, fogo e ar, quatro são as fases o homem – nascimento, crescimento, maturidade e velhice, quatro são as espécies celestes, quatro são as espécies terrestres, quatro são as espécies aéreas, quatro são as espécies aquáticas, quatro são os anos necessários para formar o ano bissexto, quatro é o número necessário de patas para um animal se manter de pé, quatro é a posição preferida dele. Está bem! Grita dentro da sua cabeça um cansaço (enfim útil para alguma coisa): “Um número par poderia ocasionar um empate e não teríamos uma resposta”. Três.

Então porque não o cinco ou o cabalístico sete ao invés de três? Aaaaaaaaaaai! Aquilo não teria fim… Jogar uma moeda, melhor que carros. Funciona com o I Ching, né? Cara, sim vou lutar pelo meu grande amor; coroa, não vou me humilhar. Mas e se a primeira resposta não for a certa? Uma chance em… Ah, não lembrava a probabilidade da estatística. Melhor então jogar a moeda três vezes para ter certeza. De novo três? Que mania! Quando ia comprar quindim na padaria sempre eram três. Será que era por causa da crença de São Longuinho? Desde criança ela dava três pulinhos para o santo lhe restituir uma coisa perdida. Mesmo o I Ching… Para desenhar um hexagrama era preciso seis linhas (duas vezes três). Olhou para o braço, um jogo de pulseiras. Jamais usaria só duas ou uma, mas três é o mínimo.

Lá na Grécia tinha cerca de 120 tríades míticas (40 grupos de três). Também na mitologia escandinava três divindades do destino dividiam o cosmo em três partes distintas. No Egito Osíris, Ísis e Hórus e no hinduísmo Brahma, Vishnu e Siva. Por que nenhuma vinha lhe socorrer? Três são as línguas sagradas, três são as épocas da história humana: passado, presente e futuro… E por falar nisso, o que fazer? A numerologia diz, tenta ela se convencer, que a terceira vez é a do encanto, porque este é um número considerado por milênios como mágico. Por isso bater na madeira três vezes para isolar um mau agouro. E, como não pode deixar de ser, na numerologia, o três denota tanto harmonia espiritual quanto energia sexual. É uma espécie de energia transcendente e geradora. Hum, bem sugestivo!

Então decidiu voltar aos carros e optou pelo três para fazer a intuição falar. Mas e se passar um fusca rosa, um Passat amarelo e um Gol verde abacate? Escolheu o vermelho porque estava na moda, isso não poderia acontecer. E, enfim, decidida garantiu: “Se tudo der errado dessa vez, ainda volto outras duas vezes mais por garantia”.

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