A Livraria das Obras Inéditas


Esperildes
03/24/2012, 2:42 am
Filed under: Crônicas

“O pior dos temporais aduba o jardim”. Sergio Sampaio

 

Eu estava lá com os cotovelos no balcão e aqueles montes de violões sobre a minha cabeça. Madeiras, cores, formas, entradas de todos os tipos. Quando uma mulher com uma verruga ressecada no rosto entrou com um neném no colo, eu quis logo por meu preconceito para trabalhar. “Que tipo de música ela faz?”. Sorri para ela. O vendedor que me perguntou se eu queria alguma coisa (eu disse não. esperava o outro voltar com a minha escaleta) fez a mesma pergunta para ela que respondeu me decepcionando: “quero um cabo para ligar a sky ao aparelho de DVD”. Ah sim, era uma loja que vendia eletrônicos também.

O homem demorava e eu devia pressentir o perigo. Fugi de Juiz de Fora há dois anos. Quando venho visitar minha mãe, não me atrevo a andar pelas ruas para evitar o passado. Mas em São João Del Rei não se vende escaletas. E eu, quando enfio uma coisa na cabeça… Apareceu o Murilo. Parou do meu lado e não me viu no balcão. Como assim não me viu? Ei! Não está me reconhecendo? Oi! Você ainda está em São João? Ah, sim! Venho aqui muito pouco. E a Nara? Morreu. Pausa. Eu não fiquei sabendo… Pois é, já faz um ano e meio. Meu Deus. Chegaram os dois vendedores. Um com uma tomada para ele e outro com a minha escaleta. Então, explicava o vendedor abrindo a maleta azul, ela vem com isso e isso e aquilo. Tiau Dani! Eu sinto muito Murilo. A vida continua… [engasgado]. Aparece em São João! [que idiota eu sou].

Paguei e fui embora pensando… Eu fiquei sabendo que a Nara tinha morrido? Se sim, por que menti para mim mesma que não? Só porque ela lutou por anos contra o câncer eu não poderia me consolar de forma tão alvejante! Mas sentir o que em relação à morte? O celular tocou e minha mãe me disse que Esperildes me esperava… Há uns cinco anos que eu não havia…

Esperildes me esperava… Encapou um caderno com motivos da Disney e desenhou nele inteirinho flores selvagens, moças de saias coloridas com pandeiro e violão, flautas soltas no ar, xique-xique e mais instrumentos populares que ignorante nem imagino quais são! Tem chaleiras e canecas coloridas, que bem sei são esmaltadas, e um carro puxado por bois bumbas cheio de meninas cantantes de cabelos cacheados repletos de flores. Um mundo que transborda as cores da caixa de lápis.

Minha mãe me disse que desconfiava que Esperildes ainda esperava que eu fosse menina. Entendi que não quando ela recomendou sorridente: agora você guarda a minha lembrança! E depois pensei que sim, mas era só ela me revelando o segredo dos seus oitenta e três anos menos vinte… Foi assim de graça, quando mostrei a escaleta que eu tinha acabado de comprar antes de passar na casa dela. Contei que ia aprender a tocar música e Esperildes e seus olhos brilhantes me vem com essa: “Danielinha, você vai ver que um instrumento em casa é um companheiro que a gente tem!”. Decidiu que ia comprar uma escaleta enquanto não podia comprar o violão (o seu estragou). Revelou que acha o banjo lindo e que não tinha muita certeza quantas cordas ia no bandolim. Parece que ela vai tocar todos! Falou toda contente que estava adorando a nova casa e tinha até um vizinho que tocava guitarra. Esperildes, minha tia menina me mostrou que ternura não deixa envelhecer. E ela me esperava com a mesma carinha de sempre onde a gente nem vê as rugas. Esperildes me esperou ela mesmo menina.

Eu chorei quando cheguei em casa. Não de alegria, nem de tristeza, nem de qualquer outra emoção. Era só pra jogar fora mesmo o grosso que deixei, sem saber, encorpar em mim…

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