A Livraria das Obras Inéditas


O Maldito
04/02/2012, 8:04 pm
Filed under: Folhetim

Maldito sou desde o ventre. Eu sabia o que eu não queria, eu sonhava em ser um vagabundo quando criança e quando amadureci percebi que tinha que fazer alguma coisa. Então eu resolvi ser poeta. Mas eu também aprendi a tocar violão e decidi me aprofundar nos estudos do baixo acústico. Assim, eu resolvia o problema da cobrança da minha mãe. Ela é professora, jamais admitiria que eu largasse os estudos e não fizesse faculdade. Amenizei a molecagem hoje em dia. Trabalho, sou professor e até sustento uma casa. Eu e minha nega formamos uma linda família e nos amamos pra valer. Minha vida sem ela não tem sentido. Receber os amigos em casa vez em quando e ter comida boa é o melhor da vida. E tenho dito.

Mas como estava falando, eu sou maldito. Eu curto Sergio Sampaio e aqueles que ficaram na nota de rodapé da história da Tropicália. Não tem samba do Noel Rosa que eu não conheça e sei a história de todos os heróis (pelo menos pra mim) da MPB. Digo, Nelson Cavaquinho, Assis Valente, Lupicínio Rodrigues… Em pensar que eu era heavy metal, hein? Quem diria! Hoje eu não sei. Não aguento ouvir nada em inglês e essas bandinhas, sabe? É chato. Gosto de escutar só os meus vinis e, puxa! Você precisa ver a coleção que eu tenho. Deixa eu colocar um som pra você. Tá bom esse? É… É jazz. Quem? Deixa eu ver. É um disco de jazz, né? Não me lembro o nome… Charlie Parker!!! Bird! Genial!

Como todo maldito eu não acredito em Deus. Mas a minha mulher quer casar na igreja então um dia talvez eu case. Porque é importante né? É importante pra mim também, pô. Não vou dizer que é só coisa dela. Quando a gente ama de verdade, a gente tem que respeitar o outro. A gente sonha junto, constrói as coisas… E aí não custa nada realizar o sonho dela né? Eu fui o primeiro homem da vida dela… Acho isso bonito porque eu mesmo não entrei nessa de querer ser macho alfa tá sabendo? Tudo bem que eu também não era um galã. Mas eu estava preocupado com coisas mais importantes na época… Perdi minha virgindade com dezessete anos. A menina era toda maluquete… Namoramos, mas eu não queria ficar com uma pessoa assim. Você entende? Ela tinha cabelo azul… Sei lá. Foi uma coisa juvenil. Daí quando conheci a minha patroa foi diferente. A gente não tinha nada a ver, mas ela era linda! Sabe, dessas meninas raras que não existem hoje em dia? E ela também é brava sabe? Doce e meiga, mas se eu bobear ela mete os fumos. Acho bom isso porque a mulher precisa ser forte pra dirigir a vida da gente.

Só que eu sou maldito, né? E vez em quando acontece que eu pulo a cerca. Tenho umas amigas e vez em quando a gente brinca. Daí rapaz, uma vez eu fui me meter com uma que levou o negócio a sério. Ah, fiquei maus, mas também ela não aceitou as minhas condições. Eu queria ter ficado mais com ela, falei… Só que ela não deu conta. Disse que não e coisa e tal. Eu também estava gostando, sabe? O nosso lance era legal mas… Sexo, né? Amor não é assim. Bom, aí foi nessa época que resolvi chamar minha mulher pra morar comigo. E foi perfeito! Porque ela acabou descobrindo esse caso e provou que me ama de verdade. Lutou por mim, largou a família e veio morar comigo! Tá certo né? Sou um cara de sorte. Quando as despesas aqui em casa apertam a gente vai prum barzinho e faz um som. Eu toco violão e ela pandeiro. Daí a gente tira um trocado. Companheirona, começou até a estudar música. Eu me sinto mesmo um cara de sorte por ter encontrado o amor verdadeiro. Você até poderá me ver dando aquela olhadinha para trás, mas segundo o mestre Vinícius de Morais isso é perdoável.

Sim, por isso amor verdadeiro. Todo maldito que se preze tem um amor verdadeiro. Não é essas superficialidades que a gente vê por aí… Um amigo meu se separou a pouco tempo. Você precisa ver. Não ia dar certo nunca! Eles tinham um filho e por isso sempre saiam sozinhos, porque alguém tinha que ficar com a criança. Agora imagine! Mulher com as amigas sozinha em mesa de bar? Dá merda. E deu mesmo. Eu levo a minha nega pra todo lugar. E não é só isso! Olha, na vida a gente tem que dividir tudo. Não adianta esse papo de você faz as suas coisas e eu faço as minhas. É construir a vida junto! Por isso que eu falei com a minha mulher… Vai querer ai fazer esse curso de merda pra que? Pra agradar sua mãe? Faz o que você gosta. E como ela me ama, então ela só podia fazer música! E agora somos um casal de malditos vivendo por ai com nossa música e a nossa poesia. Sou um cara feliz, simples assim!

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