A Livraria das Obras Inéditas


Na boca do canhão: ler, amar, viver.
05/31/2012, 12:31 pm
Filed under: Crônicas

Queria ler um livro que me deixasse viciada. Digo, daqueles tipos que faz a gente querer voltar pra casa logo só para ver o que vai acontecer. Um livro que me fizesse apaixonada pelo personagem secundário… Sabe como é? Você fica torcendo pra chegar na página que ele aparece e diz compulsivamente em voz alta: “Adoooro esse cara!”. Queria um livro que mudasse meu jeito de pensar e vestir. Sabe aqueles tipos de arroubos literários da adolescência? Ou que me fizesse querer ter um gato só para por o nome nele desse autor. É… Pode ser clichê, mas era bem gostoso o pedantismo sem culpa. Então queria um livro que me devolvesse isso também e que me desse pena de terminá-lo… Ao mesmo tempo em que eu o levasse para passear por sempre querer combinar sua narrativa com uma pracinha feia, com uma missa de domingo, com uma biblioteca antiga, com um boteco sujo e barulhento, com um supermercado iluminado, ou sei lá, algo que me fizesse rir de mim mesma ou qualquer outra coisa! Um livro manual de burlar rotinas, uma espécie de portal para outro mundo ou que fizesse a junção de dois mundos e você ficasse convivendo com aquilo ali. Queria um livro que fizesse de mim escritora de novo. Queria odiar seu autor de tanta inveja por não ter tido aquela ideia antes.  Algo que me fizesse peidar pseudagem porque me poria em marcha de reinvenção de mim mesma. Um livro que me desse um frio na espinha…

Como o conto “Dona Paula” de Machado de Assis. O “Trópico de Câncer”, de Henry Miller. As vagabundagens de Maga e Oliveira no Jogo da Amarelinha, do Cortázar. Pode ser leve como “As Meninas”, da Ligia Fagundes Telles. Ou incomodar como “Capitães da Areia”, do Jorge Amado. Aceito até viajar no tempo como foi com “Anarquistas Graças a Deus”. Não quero aquela escrita visceral do tipo Clarice arrancando as veias e sofrendo pela folha da árvore que cai do chão. Nem a crítica social e política ressentida. Talvez a crítica leviana de um punk-junkie, feito o Bukowisk.

Letras que funcionem como música eu acho. Individualismo e paixão das massas como um carnaval em que fantasia não ofende a realidade. Algo tão onírico que me faça gargalhar. Uma piada que nada tem a ver com inteligência, mas apreciação do absurdo! Me apaixonar, gente! Eu estou assim: na boca do canhão. Que, aliás, é o título do meu romance interminável… Interminável e quase invisível!

Anúncios
Comentários Desativados em Na boca do canhão: ler, amar, viver.





Os comentários estão fechados.



%d bloggers like this: