A Livraria das Obras Inéditas


Juiz de Fora
08/22/2012, 3:22 pm
Filed under: Crônicas

Juiz de Fora, cidade cemitério.

Aqui, a ilusão foi enterrada.

Aqui, uma amiga pulou do décimo quinto andar

– e a vizinha também.

Aqui, me apaixonei por um babaca.

Aqui, os cachos do meu cabelo murcham na chuva tristinha e ácida.

Aqui, desenhei na sola do tênis para ver se deixava marcas na calçada.

– vão, aqui toda brincadeira é vã.

Aqui, todos se vão.

Aqui, li um punhado de livros para fugir da vida cinza, fria, clássica.

Aqui, me consolei com psicanálise.

Aqui, comi calçadas.

Aqui, há tantos lugares para ir… Aqui, ali, tantos e vários… Mas tudo com cover e nenhum para onde se queira voltar. Em Juiz de Fora, uma euforia se esgota numa noite.

Se bem que tudo que se repete em Juiz de Fora fede a miséria.

E os sorrisos são ressentidos, com uma nostalgia de crianças violentadas.

As pessoas não te olham na cara, nos olhos. Pois precisam estar desinteressadas para que não percam seu valor. Seu valor fabricado nas escolas, nas academias, nos passaportes, nas roupas de Juiz de Fora.

Aqui, os deuses são todos esquizofrênicos, andam fardados e suas igrejas são vazias.

A cidade fabrica descrença, ateus. Porque é sinal de inteligência ser cínico. Porque a fantasia sempre esteve morta.

Aqui, os zumbis fazem compras no Carrefour e os shoppings são galerias que se gabam de cosmopolitismo. E é esse o movimento de Juiz de Fora, um entrar e sair de lojas.

A cidade está sempre tão bonita, limpa e atual que o Marco Polo de Calvino jamais adivinharia sua história.

– eu disse limpa? Tem muita bosta nas ruas de Juiz de Fora. Todo mundo compra um cachorro para se ter um amigo em Juiz de Fora.

Mas há um belo arquivo, exposições e congressos para se falar de tudo. Todo mundo é especialista em alguma coisa. Tem mais doutor que artista em Juiz de Fora. Porque artista é aqui uma especialidade, não um ato deliberado da vontade.

E deus! Todos querem ser cariocas, e estão sempre querendo ir ao Rio de Janeiro, pois se não são a capital de Minas Gerais, para que ir a Minas Gerais? Então estão sempre tristes…

O poeta de Juiz de Fora disse que feliz aqui só o Rio Paraibuna, que está de passagem.

Seus habitantes vieram todos das roças da zona da mata e têm medo de qualquer atitude espontânea que denuncie sua origem. Ou quando não o são tem vergonha de ser pobre, óbvio ou fora de moda.

Então é quase como um crime estar apaixonado e eufórico em Juiz de Fora.

Não se pode cantar desafinado!

Não se pode embriagar sem esquecer-se em Juiz de Fora!

E o clima parece justificar a gola rolé, o cachecol blasé, a jaqueta não sei quê.

Atenção: em Juiz de Fora a Aninha fez escova definitiva no cabelo e se sentiu bem.

E uma simpática conhecida de cabelo encaracolado disse-me numa festa que eu exagerava, que existia sim felicidade em Juiz de Fora. Na época, estávamos presas numa caverna e eu sabia que aquelas eram somente sombras. E que as pessoas de verdade estavam mesmo fora de Juiz de Fora.

Então eu respondo ao que eu ganhei no tempo que morei em Juiz de Fora: um descanso de existir.

Arnaldo Baptista mora lá ainda.

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