A Livraria das Obras Inéditas


Isso
04/18/2013, 7:33 pm
Filed under: Folhetim

-É isso?

-Mas o que é isso?

-Me diz você.

-Pensei que você soubesse.

-Queria ouvir de você.

-Não sei… Por isso esperava que você me dissesse.

-E eu queria ouvir de você!

-Mas eu não sei.

-Então também não vou dizer.

-…

-…

-Será que chove?

-Tá frio né?

-Tá muito.

-Sabe que eu nem sei quanto tempo faz que não ando de bicicleta?

-Eu vou tirar a blusa, tá calor.

-É. Acabou o frio… Mas mais cedo tava frio…

-Tava…

-…

-…

-Está tudo bem?

-Tá… Tá ótimo, aliás.

-Então está tudo bem se for isso?

-Eu não sei o que é isso, como vou saber?

-É isso sim. Pode acreditar.

-Você está bem?

-Tudo bem.

-Tenho que ir. Você vem comigo?

-Não… Você sabe como é isso.

-Não sei, mas tudo bem.

-Tudo bem que… ah, deixa para lá.

-A gente parece doido.

-Parece.

-É engraçado.

-Não, é triste.

-Então… É triste mesmo.

-Mas vamos dizer que é engraçado.

-Pois é.

-Pois é.

-…

-…

-Tenho que ir ao INSS…

-Tenho que comprar uma torneira pra pia lá de casa.

-É. Tenho que ir.

-Eu também…

-É tiau ou adeus?

-Não sei, você que precisou ir primeiro.

-Mas… Então tá. Se você quer assim, adeus.

-Tiau.

-É… Por que você não me diz o que é?

-Eu não tenho que te cobrar nada! Você que não quer saber.

-Você não entende. É uma maluca!

-Quando você me chama de maluca dá entender que não quer compreender o meu não entendimento.

-Mas eu expliquei…

-E eu tenho um sentimento a respeito disso.

-E o que é isso? Eu te perguntei objetivamente.

-E isso te faz melhor do que eu? Eu quero saber o que é isso.

-Não se trata disso!

-Mas você me magoou.

-O que eu fiz? Pare de me acusar.

-Eu não estou acusando… É só o que eu sinto.

-Então! É isso. Por que você não me diz?

-Isso o que? Eu disse! Você que não disse!

-Eu não sei se eu posso… Quer dizer, talvez não seja o momento.

-De você me dizer?

-Não. Não é mais isso.

-Então por que você me perguntou se era isso? Se não é mais…

-Eu queria… Vem cá. Você está atrapalhando as pessoas passarem na calçada. Eu…

-Eu esperava que…

-Eu estava falando.

-Desculpa, então fala.

-Ah, passou…

-Entendi.

-Isso está ruim.

-Uma tortura.

-Então é isso, né?

-Era…

-Era?

-Ainda é…

-Então talvez seja melhor a gente ir.

-É.

-E você nem chora. Nem liga…

-Nem você!

-Não tem porque, né?

-Não somos o tipo dramático.

-Somos práticos.

-Somos adultos.

-Então é isso.

-É.

-Tiau.

-Adeus.

***Também publicado em Mallarmargens

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