A Livraria das Obras Inéditas


amar meninos
07/05/2012, 1:50 am
Filed under: Escrito em confete

os meninos não tem vergonha de carregar capa e espada.
os homens carregam armas escondidas em paletós.
os meninos…
os meninos tem essa coisa de desafiar a gravidade amarrando um lençol no pescoço.

com meninos velhos tenho diálogos de Tarantino
tudo acaba em algum musical no paralelepípedo.
canalha é só um animal ridículo e fofo.
as palavras violão e bicicleta se completam naturalmente na mesma frase.

você não usa filosofia…
e agora estou rindo porque é tudo uma questão de combinar opostos como se a vida fosse uma moeda com cara e coroa.
rum cubano não passa de conhaque nacional.
conhaque tem sabor de Lupicínio Rodrigues e etc.

há coisas mais importantes do que nós dois,
um breve intervalo na realidade.
de vez em quando eu simplesmente sinto
seu nariz na ponta da minha língua ou
seu cabelo como um anel no meu dedo.
tudo se enche e estoura como um balão vermelho.

sem lamentação.
porque a eternidade é só um premio de consolação.
Vou lavar uma roupa,
jogar paciência
invejar a Gal que canta com perfeição
o Torquato naquela simplicidade toda…
“a coisa mais linda que existe é ter você perto de mim”.
só porque você não está.

estréia  no mallarmargens

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Meu bilhete
03/16/2012, 2:39 pm
Filed under: Escrito em confete, Poesias

Se tu me amas, grite!
Como se seu time tivesse feito gol
Mate uns dois passarinhos
e faz deles um jantar pra mim.
Se me queres,
enfim,
Diga somente a mentira
porque das verdades eu sempre desconfio.

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O amor à caneta
03/07/2012, 4:51 pm
Filed under: Escrito em confete

Guardo seu amor

[que eu não tenho]

no meu sutiã;

bem junto ao seio.

E lá ele vai estar

Até eu perdê-lo

ou o papel se desgastar.

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As coisas bonitas são tristes posto que sozinhas
04/25/2011, 3:53 pm
Filed under: Escrito em confete


*Publicado originalmente na revista Diversos Afins. Resolvi modificá-lo hoje…

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Cláudia
04/20/2011, 12:02 pm
Filed under: Escrito em confete

 “Não, não é isso!”, a menina dizia. “O que eu sou é cientista!”. E titia que era teimosa feito uma mula tentava a todo custo convencê-la com outra vocação. E quanto mais Cláudia tentava ser cientista mais a mulher se convencia que a menina era artista: “Porque se tirar a luz do azul ele não vai ficar preto, né? E se tirar a luz do cinza ele não vai ficar azul-marinho”. Daí o dedinho da tia! “Eu não falei? Tem percepção poética!”. Isso não era bonito, a menina dizia quase chorando, é ciência. Mas Tia tetê achava mesmo necessário terminar aquele papo no museu, ou, melhor dizendo, no castelo que ficava no caminho da escola.

Uma vez lá dentro, a mulher continuou a falar bobagens. E a menina decidiu não ouvir porque estava suficientemente convencida. Mas para não se cansar mais, Cláudia resolveu fingir que escutava olhando atentamente para tudo que via. Tinha figuras bem coloridas que pareciam uma fotografia, coisas também bem bobinhas que ela já tinha feito com massinhas e outras tantas que, com tinta guache, Cláudia melhor desenharia. No entanto, foi o quadro das meninas que eram metade gente e metade guarda chuva que provocou aquela grosseria irresistível. “Que coisa boba! Tão bonitinhas, mas com só uma perna de bengala e saia formada pela parte do pano da sombrinha!? “. Eu quero ir embora, saiu Cláudia ultrajada a caminho da saída.

Triste e cansada, Tia Tetê, enfim, quase desistiu. Quase, pois Cláudia, ao ver na calçada uma moça mutilada de perna única, gritou: “Olha, Tia Tetê! Que linda!”.

*Apesar de estar sendo postado hoje novamente, este texto nada tem a ver com a Cláudia Resende nem com a sua Tia Tetê. Escolhi este nome (cláudia, claudicar, etc) antes de conhecê-las. Uma coincidência incrível!

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Guarda Chuva
08/16/2009, 6:19 am
Filed under: Escrito em confete

Esticou bem a língua para o céu acertar uma gota e irrigar as papilas. Todas as nuvens em equipe tentaram, mas nem assim tinham a mira tão boa de outrora. Enfiou cinco dedos num bolso e mais quatro n’outro, como se um polegar esquecido fosse natural. Com a canela empurrando a saia comprida fez de conta que podia flutuar… Mas eram passos, pesados pelo pano que encharcou, a pele que enrugou e o cabelo que minguou. Às vezes uma chuva era apenas uma chuva, carregando todo lixo da rua para dentro da sandália. Ou fazendo a casa ficar mais longe como um demônio às vezes fica manipulando o espaço. Não! A verdade é que era apenas uma chuva e o mais que poderia acontecer era  a mulher ficar resfriada ou humilhada. Não! Já na porta de casa deu uma última olhada no rio de dejetos que rolavam no asfalto. Tão logo as nuvens desfizessem as mãos dadas o rio seria de novo apenas a mesma estrada limpa. Já se escorrendo, dentro da sala, um Deus lá fora parecia bravo. Seu coração acelerou como se tivesse para onde correr. Foi para cozinha e tomou um copo d’água. Demorasse mais um pouco, morria de sede.



a clockwork orange
05/15/2009, 4:25 am
Filed under: Escrito em confete

socializado, domesticado, adestrado, encoleirado, vegetariano, crina podada, quero não. limpo, responsável, paterno, funcionário do mês, de rimas fáceis, quero não. dominical, familiar, apreciador de Djavan, regenerado, cor de rosa, quero não. quadrado, comercializado, de rígidos horários, de ferradura nos pés, bonzinho, happy end, quero não. anti-bizarro, patético, piegas, estudioso, sem catarro, resolvido, quero não. que nem peida, sem musica própria, sem arte, politicamente correto, ex-fumante, alcoólatra anônimo, quero não. crente, não dança, distante da última, medroso, acadêmico, empregado, quero não. elogiado, leve, analisado, de futuro brilhante, novela das nove, poetinha manjado, quero não. de paz encontrada, garantido, seguro, lícito, cutie cutie, que nunca esmaga formigas, deixa pra ela.