A Livraria das Obras Inéditas


Prefácio da Quaresma
02/26/2012, 4:50 am
Filed under: Crônicas, Guimbas de carnaval

Primeiro fim de semana da quaresma. Madrugada de sábado para domingo. A cidade dorme como se tivesse a alma lavada com água sanitária. Fico pensando que quando os tambores e o barulho das caixas de som ocupam todos os cantos, os grilos e os morcegos vão-se para outro lugar. Onde o carnaval nunca atinge? Que lugar é esse que a realidade nunca descansa? Pergunto e só escuto gri gri gri e o barulho do esgoto que escorre misturado ao córrego que atravessa a cidade. Não falo a língua dos grilos e onde a realidade nunca descansa é um lugar que só pode ser imaginado. Melhor varrer a sala. Encontro um confete, uma mosca morta e um fio dourado.

Diz-se que aqui em terras barrocas se deve esperar com alegria a festa da páscoa com o coração purificado. Mas tem que se alegrar sofrendo ou sofrer por estar alegre. Os sinos tocam lá dentro da gente os repiques dos mesmos irmãos que tocaram os tambores profanos. Eu sei onde o pecado nunca descansa. Daí faz sentido que uma música triste e bonita deixe a gente feliz.

Anúncios
Comentários Desativados em Prefácio da Quaresma


Marchinha das cores
04/05/2009, 11:36 pm
Filed under: Guimbas de carnaval

Tem cor a alegria
Do novo milênio que se desvela
É o azul e branco da Fluoxetina
Que de outrora foi da Portela.

Inda bem que é quase de graça
A alegria branca e amarela
Porque ainda existe cachaça
Pelo preço de uma bagatela.

A alegria já foi só branca
E ofuscava tudo mais
Alvejava-se a esperança
No alto custo da paz

Mas houve uma vez um tempo
Que alegria não tinha cor
Ela vinha com o vento
E a gente brincava com a dor.



Quatro fantasias
02/06/2009, 11:02 pm
Filed under: Guimbas de carnaval

Prelúdio.
Aos inadvertidos
que fizeram meus dramas engraçados:
Bananas!
(coisa mais sem grosso e sem nada
cheia de amarelo e sardas).
Aos equívocos
cujo doce fizeram meus sonhos penados:
Plumas!
(para se aprender andar
à dois centímetros do chão).

Renasça Colombina,
Carmem e Odalisca!
Na mala vai as máscaras,
no ouvido penduricalhos,
nunca mais conselhos.
Nem na boca, hein!
Donde não se escova mais os dentes
Porque há de cultivar vida nela
invisível e com peçonha,
tal qual micróbios e demônios
que habitam a pele e a razão dos loucos.

Sábado.
Aviso:
Eu não tenho bom senso
pra mesa de bar.
Se quiser que eu saia,
tem que implorar.
Mentira,
saio com elegância e bom grado
depois de fazer de conta
que estou num livro de Jorge Amado.

Domingo.
Respondo:
Hoje tem palhaçada?
Cadê meu senhor?
Hoje tem marmelada?
Dá cá meu amor.

Segunda.
Rogo:
Príncipe encantado,
vejo em ti mil sortilégios
ainda que não tenhas cavalo.
Não deixes apenas a herpes
de lembrança nos meus lábios,
nem tampouco a camisa xadrez
com xeque-mate embutido como herança.

Terça.
Foto:
retocando o batom
no reflexo da poça de lama
espera outro grande amor
passar tropeçando enquanto samba
enchendo as unhas de rubor
ao lançar o bote que o alcança
inventando-se presa
e formas de ser abatida.

Quarta. (considerações finais)
Xepa:
Repouso num cinzeiro
depois de virar fumaça
na boca de homens brisa.
Só uma traição me resta:
A amnésia.

Ora vejam, amigos!
Eis a fruta
Que conheço até o bagaço.

1225833449127_f5