A Livraria das Obras Inéditas


As miçangas brilham como esmeraldas
09/27/2008, 3:46 am
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E eu descobri que vivia no quarto lendo as rachaduras e infiltrações no teto. Imaginando mil lugares que só existiam na minha cabeça, mas que eu dava nomes verdadeiros só pra ninguém me encher o saco. Todo mundo sempre diz: vai pra lá, vai pra cá. Faça, aconteça. E puxa! Sou perita em arregalar olhos saudosos e arrancar a fantástica frase: “Nossa! Você não mudou nada!”. E eu imortal, sei lá, pensando que vou morrer a qualquer instante de tanto sonhar. Sonhar que vou morrer e morrer de pena de mim. Eu não sei, é engraçado feito Didi Mocó, Mussum e Zacarias*. Nem sei onde estou, mas asseguro aos meus amigos que vou estar esperando por eles com meu sorriso. O mesmo com dentinho estufado que nasceu revoltado depois de um chute de uma bota ortopédica com biqueira de caneca do alumínio. Uns mancam outros riem torto mesmo, fazer o que?

Enfim, pensei que seria a Argentina sabe? Frio, café, tango, livros e estas coisas sofisticadas. Mas é o cu de Minas mesmo… Você sabe onde fica? A mim me parece lindo! Porque o cu da gente é uma coisa que só dá pra ver no espelho. E eu queria tanto ficar sozinha… É a melhor sensação de medo que já experimentei na vida. E estou tão bem porque não tenho saudades. Ai, tô egoísta! Deliciosamente. Querendo mudar o mundo. Fazer mentiras acontecerem. Estufando o peito pro nada pra qualquer um enfiar a mão e tirar uma coisa ao léu feito cartola de mágico. Eu sei lá, que pena que automatizaram: “Eu estou bem”! Porque não é humildade… Eu realmente estou muito bem…

*Tem o Dedé também gente! Mas ele não te graça…

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Prefácio
05/10/2008, 9:57 pm
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Estou prestes a fazer mais uma viagem emocional ao barroco. Não faz tanto tempo que estive lá, tampouco é a inauguração de um fato ou experiência, mas somente quem já viveu naquele lugar sabe exatamente como ele se renova em nós. E está frio, muito frio. Zéfiro nos invade e provoca verdadeiras nevascas na barriga e você nem mesmo sabe exatamente por que. Contudo, há algo que nunca consigo expressar… Se você não entender esta minha tentativa de mais uma vez descrever, leia Otávio Paz, que conseguiu racionalizar a coisa toda. Mas a subversão temporal, os paradoxos, a promiscuidade, a afetividade telúrica, a fealdade embriagante, a fugacidade da mágica, o entorpecimento da razão e tudo mais provocado pela presença ambígua da arte sacra, silenciosa e cúmplice a nos influenciar dissimuladamente, isto é para poucos.

É preciso ter imprimido seu DNA em algum paralelepípedo, em algum bueiro, parede ou banheiro fétido de algum bairro marginal. Estou falando de mijar nos seus cantos escuros devolvendo com sua marca as formas pela qual se deixou embriagar. Vomitar o jorro de alguma experiência que ultrapassou os limites de tudo que já se imaginou fazer. De deixar para trás alguma lágrima de um coração partido ou um amigo ido para a inevitável morte. De ter corrido perigo numa madrugada ao fugir de algum ser endemoniado. De ter deixado a lembrança do pano branco de uma saia rodopiando em alguma batida de alfaia.

Para se manter de pé no barroco é preciso ter uma personalidade forte. Os fracos lá não sobrevivem, sucumbem como musas tísicas do romantismo, seres sem graça, de liberdade ilusória, sempre em busca de um ideal que justifique sua covardia. O barroco não admite tal comportamento. Ele derruba os fracos, que sucumbem ao menor contato de sua ordem caótica. Geralmente os aventureiros que por lá passam não entendem que não se trata de um simples embriagar-se. Nada pode tomar o barroco. Do barroco só se compartilha, só se torna cúmplice. Processos apenas viáveis pela ação criativa de viver sempre se imprimindo no mundo, procurando deixar em cada esquina um pedaço da sua alma, doando-se acima de qualquer lógica para receber toda a potencialidade das entrelinhas e dobras do barroco.

Há que se acreditar com toda força dos sentimentos em Cristo e jurar amor a ele. Ao mesmo tempo há de encontrá-lo rodopiando num terreiro de candomblé e não se importar muito por quem se foi influenciado, ou de que povo pertence determinada cultura, ou se está sendo livre ou não. Não se deve preocupar se o passado recente faz parte de uma vida onírica ou de vigília. O barroco rejeita racionalismos e definições, até de liberdade ou potência. Para se manter de pé no barroco, há de apenas ser o que der e vier. Ver cada filosofia se quebrar como mármore e descobrir que cada caco pode virar a qualquer momento um monumento. Ver o universo num pequeno copo de cachaça e dar um ritmo a ele nos mistérios de um terço. Isto é viver o barroco. Pena que para poucos e amaldiçoados que como eu são marcados pelo gosto agridoce de sua paixão e demência.



Férias
03/14/2008, 6:36 am
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Olhar o céu cinza e procurar frio.
Ficar deitada na cama de lençol rosa como se fosse uma formiga a boiar num copo de iogurte encorpado.
Ler Henry Miller para tomar coragem de contrabandear para a França belas gargalhadas latinas. O medo veio do jornal: fiscais abrem correspondências e não deixam passar conchas do litoral nordestino. O medo veio do jornal. O mundo vai acabar em 2012 segundo a Nasa… O pólo norte e o pólo sul vão nos deixar em baixo d’água. Chico Buarque! Fico tentada a escrever uma carta de amor só para ser estudada por escafandristas. Esse é o desejo de todo escritor não?
Férias, Deus do céu! Férias! É preciso eternizar momentos.
Ando tão feliz que fico com esta impressão de que alguma coisa de muito ruim vai acontecer. Tenho vergonha de dizer assim com voz. Mas eu quero me ver ser inundada pelo pólo norte e o pólo sul derretidos em 2012. Vou ficar de braços abertos na margem da praia de Copacabana e de boca aberta. Igual aqueles personagens do filme americano que eu vi, pai e filha abraçadinhos vendo uma onda do tamanho do Empire States cair de uma vez sobre eles.
Um chuá grande como 10 bombas atômicas!
Agora vou ficar deitada na cama de lençol rosa como se fosse uma formiga a boiar num copo de iogurte encorpado. Henry Miller nisso foi insuficiente. Hoje estou mais pra Cortázar.