A Livraria das Obras Inéditas


A Literatura de Vidro

“Entre mim e a vida há um vidro tênue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso lhe tocar.”

[Bernardo Soares – Livro do Desassossego]

Na literatura de vidro, a literatura está sempre in vitro.

Na literatura de vidro, ninguém faz gênero e todo mundo faz tipo.

Na literatura de vidro, não existem entrelinhas, graças ao hipertexto elas saem correndo de cavernas sombrias e conquistam espaços e novos universos.

Na literatura de vidro, um romance é contado em contos.

Na literatura de vidro, presente, passado e futuro são multiplicados.

Na literatura de vidro, todo mundo está sozinho no mesmo barco.

Na literatura de vidro, mentira é verdade, verdade é mentira ou qualquer coisa é porra nenhuma.

Na literatura de vidro, a entrada é a saída e a saída é uma dentada.

Na literatura de vidro, a casa é a rua e a rua é a casa.

Na literatura de vidro, o texto é quebrável e todo mundo fica esperando ele se quebrar para catar um caquinho.

Na literatura de vidro, ninguém é dono de nada.

Na literatura de vidro, pode se carregar o equivalente a toda biblioteca da Alexandria na mochila.

Na literatura de vidro, ninguém tem mérito.

A literatura de vidro é inútil.

Assim:

  • No início do século XIX, uma senhorinha que passava dias entediados na casa de veraneio da família à beira mar, escreve uma receita secreta no papel. Em seguida, coloca-a dentro de uma garrafa de vidro. Duzentos anos depois, em menos de meia hora, uma garota faz um blog num dia cinzento de chuva. Ela consegue descrever com humor refinado sua vida inexpressiva e passa a ser a expressão de toda uma época.
  • Não enquanto isso, sêo Setembrino pescou uma garrafa com um papelinho dentro. O que estava escrito? Uma receita que ele seguiu à risca: “cozinhar dentro de um panelão, em temperatura bem alta, dióxido de silício (SiO2), carbonato de sódio (Na2CO3) e carbonato de cálcio (CaCO3). Depois, imergir um canudo de ferro e retirá-lo rapidamente, dando voltas até formar uma bola de matéria incandescente em forma de ampola”. Não se esquecendo nunca, claro: “girar a bola de fogo por todos os lados sobre uma placa de ferro até assumir uma forma”. Mas não uma ao acaso mas a que a habilidade da imaginação daquele que a criar mandar.
  • Uma aldeia africana idolatrou por anos uma garrafa de coca-cola que jogaram de um helicóptero.
  • Um grupo de viajantes fenícios, ao voltar do Egito, parou às margens do Rio Belus. Cansados, acenderam o fogo com lenha e, apesar de costumarem usar o natrão para tingir lã, apoiaram nestas pedras vasos para cozinhar alimento. Enquanto a comida fervia, eles acabaram adormecendo e quando acordaram viram que o natrão se transformou em blocos brilhantes que pareciam enormes pedras preciosas. O sábio Zelu, que chefiava a caravana, percebeu que sob eles, a areia também desaparecera. Curioso, reacendeu o fogo e depois de algum tempo um líquido rubro e fumegante escorreu das cinzas. Zelu então correu e, antes que a tal substancia se solidificasse, plasmou com uma faca uma ampola tão maravilhosa que arrancou gritos de espanto dos seus companheiros.
  • No século XX, cientistas começaram a manipular processos biológicos fora dos sistemas vivos naturais, nos laboratórios, em recipientes fechados de vidro.
  • Não tão curiosa a história que Gabriel Garcia Marquez conta em Cem Anos de Solidão. “Em março os ciganos voltaram. Desta vez traziam um óculo de alcance e uma lupa do tamanho de um tambor, que exibiram como a última descoberta dos judeus de Amsterdam. Sentaram uma cigana num extremo da aldeia e instalaram o óculo de alcance na entrada da tenda. Mediante o pagamento de cinco reais, o povo se aproximava do óculo e via a cigana ao alcance da mão. ‘A ciência eliminou distancias’, apregoava Melquíades. Dentro em pouco o homem poderá ver o que acontece em qualquer lugar da Terra, sem sair de casa.”.
  • Não vamos desprezar Johannes Guttenberg, que teve todo trabalho de desenvolver a prensa móvel utilizando-se de caracteres avulsos rearrumados numa tábua para formar palavras e frases. Mas Cortázar foi além sendo um idiota. Jogou para o alto as páginas datilografadas de sua obra prima e inventou O Jogo da Amarelinha, fundamental à literatura de vidro.
  • Por fim, coube às empresas a patente. Elas reinventaram tudo para ter o monopólio da concessão do hipertexto, da mídia, da mágica, da criatividade, dos deuses, do acaso e da poesia. Ou seja, uma ilusão eu diria, mas sem a qual jamais viveríamos.
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